A morte rouba-nos tudo

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A morte é algo que me desorienta. Esta ideia do inesperado. Esta certeza de que tudo o que somos e temos termina num repente. Não há cá escapatórias, nem favorzinhos, nem cunhas, nem direitos exclusivos. Não interessa se eu sou freelancer, se tu és professor ou se ele é advogado, ou se eles juntos inventaram a cura para o cancro. Porque a morte vai acontecer-me a mim, a ti, a todos nós. Apenas não sabemos quando.

A morte não nos notifica por correio. Não regressa ao lugar donde veio, sem nos levar já, só porque a tentamos persuadir: «Oh morte, calma lá, que isto não pode ser assim, com essa pressa toda! Ainda quero ir ali ver o mar, comer uma fatia de bolo morgado e ver as minhas notificações no Facebook. Já agora, tira aqui uma selfie comigo para partilhar no Instagram.» Não que o bolo morgado seja benéfico para a saúde, mas que importa? Afinal de contas, estamos a uns míseros minutos de morrer.

A morte desorienta-me. Faz-me sentir-me apertada, por dentro. Faz-me andar aos círculos com os pensamentos, como se tivesse sido apanhada de surpresa no epicentro de um remoinho. E quase sinto também uma chuva grossa a cair-me na cara, violentamente, e a sufocar-me a boca, com a escuridão turva no céu e as nuvens enormes, lá em cima, a parecerem balões de cimento. Balões sem cor, sem luz, mortos também.

A morte rouba-nos tudo. Rouba-nos os sonhos que temos e aqueles que ainda não temos: porque não tivemos sequer tempo para os sonhar. Rouba-nos todos os momentos em que planeámos aproveitar a vida: amanhã, depois de amanhã, quando estivermos menos cansados ou zangados, quando deixar de chover, quando perdermos quinze quilos, quando tivermos mais dinheiro ou quando a vida estiver melhor. A morte rouba-nos tudo sem avisar. É isso que ela faz, todos os dias, várias vezes por dia, a tantos de nós.

Sempre que penso na morte, percebo que, cada vez que penso nela, também morro por dentro um bocadinho. E contra a minha vontade. Morro de vazio, de impotência, de angustia: porque sei que, quando ela chegar, nada me dará força suficiente para lutar contra ela. Para a vencer. Porque ela é mais forte do que eu, do que tu, do que todos nós, se tiver de ser o que é: morte.

Normalmente, nós não pensamos nisso. Porque não gostamos de pensar no que não conseguimos controlar. E porque, quando estamos felizes, a morte não nos interessa. Não porque passa a ser uma coisa boa, ou porque não sentimos falta de quem já cá não está, mas porque a felicidade nos dá a capacidade para nos focarmos nas coisas positivas. De alguma forma, aprendemos a agir como se fossemos uma espécie rara de pseudo-imortais: porque sabemos que morremos, mas achamos que temos sempre ainda muito tempo para tudo e que até ganhamos mais tempo de vida só pelo nosso poder fantástico de argumentação — ou talvez, no meu caso, tenha visto séries a mais d’«Os Imortais».

A morte incomoda mais quando os dias são uma permanente espera. Quando queremos desenfreadamente viver, mas não conseguimos: porque não sabemos como. Essa incapacidade de sentirmos o sangue a ferver nas veias, de conquistarmos algo ou alguém, de sentirmos amor-próprio, de sentirmos reciprocidade, de rirmos, também acaba por ser uma espécie de morte lenta de nós próprios. E uma espécie também perigosa, que vivemos em silêncio, e irreversível, porque não temos coragem para verbalizar o que nos está a acontecer por dentro. E explicar — a quem não entende — uma morte diferente da morte física. Que também incapacita. E pedir ajuda.

Quando penso na morte, a única certeza que tenho é a de que, embora ainda cá esteja viva, capaz de decidir a minha vida, capaz de escrever este texto meio parvo e meio sério, nada disso chega. Sabê-lo não chega, se não tiver a consciência — mais ou menos constante, mas não obsessiva — de que ela existe, de que ela vem e de que ela não se compadece com o meu poder argumentativo, com o meu sentido de humor e muito menos com o meu dom para o melodrama. Tenho a certeza de que a morte, mesmo comovida ou com uma lágrima a querer despontar no canto do olho, vai enxugar a sua lágrima com uma mão e arrastar-me pelo braço com a outra. Só porque chegou a minha hora.

Pensar na morte é horrível. Falar sobre ela ainda mais — sobretudo, porque é inevitável. E é por isto que muito raramente falo nela. Este é um desses raríssimos momentos.

Cá no fundo, acho que gostava de viver mais 100 anos. Todos os anos. E talvez tenha esta esperança parva de que a morte seja uma moça toda tecnológica, se cruze com o meu texto, se sinta persuadida e me proponha, pelo menos, mais 40 anos de vida. E eu sou flexível nas minhas negociações. Aqui entre nós, aceitaria de bom-grado.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.