Nasceste ave e vida fez-te voar até mim

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JenRegnier / Pixabay

Nasceste livre, com a alma de uma ave.

Eu sei, sei que sempre sonhaste em voar. Andar pelo mundo, sem que nada, nem ninguém te pudesse controlar. Nasceste para não pertencer a ninguém. Desejaste que a vida te desse só sentimentos partilhados. A tua alma pertencia a todos e não era de ninguém em exclusividade. A vida, para ti, não é compatível com a divisão de cama e mesa.

Sonhaste não ter ninho fixo. Não chamar de casa ao lugar onde está a cama em que sempre descansas sozinho, por mais que sonhes com dois braços, que te querem abraçar antes de adormecer. Sonhaste voar de árvore em árvore, espalhando o teu perfume por esse universo que te conquistou. Esse mundo que te dá a liberdade com que nasceste.

Sonhaste e foste trilhando a pulso o teu caminho.

Deixaste o teu rasto pela estrada da vida, onde sempre caminhaste com passos largos. Tatuaste sentimentos em corações alheios. Deste um pouco de ti a cada um deles. Sem nunca permitir que eles escrevessem sentimentos eternos nas linhas invisíveis do teu coração.

Poderia chamar-te ave ferida. Ou quem sabe, ave solitária.

A verdade é que não existem feridas por curar em ti. Não existem feridas visíveis, porque tu as ocultas de quem se aproxima de ti. Nunca será ave solitária, aos olhos do mundo, por vives rodeado de outras aves. Um bando de gente. Gente que te vai conhecendo, dentro do pouco que te dás a conhecer. Gente que vai passando pela tua vida, sem que os deixes criar raízes profundas. Existem os que ficam em ti, os que convidas para a tua casa. Os outros, os que decidem partir, tu acompanha-os de longe.

Sim, eu sei que és forte, dizes-te forte. Mas há uma pergunta que te faço e tu te recusas todos os dias a responder. “Com é que alimentas o teu coração?”. Sim, diz-me o que lhe dizes quando ele te pede emoção. Quando o teu corpo sente a falta de outro corpo que deseja. Que palavras usas nesses momentos? És forte aos olhos do mundo. Aos olhos dos que conhecem o teu exterior, mas não imaginam o que se passa no mais íntimo de ti.

Nasceste livre, como as aves. Mas, vives aprisionado nos sentimentos que não queres libertar. Nasceste ave, mas tens corpo de homem. Não existem penas a cobrir o teu corpo. Tens um coração que se quer alimentar de um amor que tu teimas em lhe negar. Tens asas, mas são asas de anjo e tu sabes que és um anjo protector para tantas almas que se alimentam com a força que lhes dás.

Não grites ao mundo que o amor não existe dentro de mim.

Agora mesmo, escutei o silêncio do teu coração, que me implorou por um abraço. Não vivas na sombra do que sentes todas as noites, quando no frio da insónia o teu corpo chama por mim. Não abraces o vazio, quando eu sei que preencho os teus sonhos! De que valem as palavras que a tua mente diz, se a tua alma a contradiz. Não cales, com o ruído do teu cérebro, o sentimento silencioso que todos os dias te consome. O tempo passa e a vida não volta!

Não queres que eu te diga, que te amo.

Dizes-me que não pertences a ninguém. Mas, eu olho para ti e os teus olhos dizem-me que é de amor que o teu coração precisa. Então, deixa-me dividir a vida contigo. Não te vou cortar as asas. Não te vou fechar numa gaiola. Podemos dividir a cama e partilhar sentimentos, sem que tenhamos que anular quem somos. Tu serás sempre a ave e eu nunca deixarei de ser a princesa. Tu terás a liberdade para voar e eu sempre poderei sonhar.

Nascemos diferentes, mas a vida fez-nos parecidos. A vida juntou os nossos caminhos e agora a estrada do tempo só tem um sentido, o do nosso amor lindo que nasceu numa tarde de Outono. E lembraste, tu adoras o Outono e sou apaixonada pela Primavera. Gostas das cores das folhas e eu deliro com o cheiro das flores.

Nasceste ave e vida fez-te voar até mim. Eu sonhei com um príncipe encantado e a vida trouxe-te até mim.


Escrito por Angela Caboz. Texto do livro «Confissões de Uma Miúda Gira»

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