Um dia destes, vou ter contigo!

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Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Engulo em seco. A vida continua lá fora. Os carros passam, as pessoas vagueiam pelas ruas e a noite vai-se aproximando devagar. O mundo não parou. A Terra continua na sua dança giratória contra o tempo. Os pássaros continuam a cantar de manhã e o silêncio da noite continua a trazer o som da chuva a embater nas janelas. Mas tudo mudou. Pelo menos, nesta casa.

Estico as minhas mãos já magras e olho-as demoradamente. Nelas, vejo a nossa aliança de casamento: apertada, abraçando-me a carne, há tanto tempo. Já não me lembro da quantidade de vezes que pensei tirá-la do dedo. O esforço que teria de fazer para a conseguir arrancar daqui. Mas para quê? Apesar de tudo, continuas aqui, mesmo já cá não estando. Não é um anel que vai alterar isso.

Encolho os ombros, sem perder mais tempo a pensar no que não tem solução, e fito a janela. Tenho tanta coisa para fazer em casa e não me mexo. Estou para aqui, sentada nesta cadeira de verga, onde costumavas ler o jornal no tablet novo que o teu filho te ofereceu pelo natal. Está ali guardado na gaveta — sabes bem que eu não sou muito dada às novas tecnologias. Falta-me colocar a roupa a lavar, estender a que já está lavada e fazer a cama de lavado. Não limpo o pó da casa há duas semanas — não que a limpasse só para ti, mas sem ti tenho menos brio em manter a casa limpa.

Esta noite, sonhei com aquele fim de semana prolongado que passámos no Alentejo. Lembras-te? Aproveitámos aquele pack de viagens que o teu filho nos ofereceu, porque se tinha separado, de repente, numa discussão relâmpago por causa de uns sapatos. O que nos rimos disso! Veio oferecer-nos a estadia a correr, como que a tentar convencer-se a si próprio de que era agora que a relação acabava. Passado algumas horas, já estava tudo bem. Ainda lhe dissemos que deveria ir ele de viagem para consolidar as pazes, mas ele já não quis. Estiveram aqui ontem a jantar.

Voltando ao fim de semana, passeámos como há muito tempo já não fazíamos, de tão habituados que estávamos a ficar em casa, a ir apenas ao café aqui ao lado, a fazer a nossa vida de todos os dias. Soube-nos bem. Voltaste a caçar — e eu voltei a arregalar os olhos, quando me perguntaste se eu queria ir contigo e, claro, recusei. Voltaste a demorar-te em frente à lareira para manter o fogo quentinho, depois de uma chuvada que apanhámos à cata de limões e de nêsperas. Que bem que me soube essas nêsperas em frente à lareira!

Quando regressávamos ao carro, de regresso ao norte, lembro-me que caíste num buraco. Vinhas de riste ao alto, a gabar-te de conseguires ainda, com a tua idade, trazer as malas todas e mais as nêsperas e os limões de uma só vez. Falaste antes do tempo! Ainda te estavas a gabar quando escorregaste numa pedra com musgo e voou-te tudo das mãos. Ainda me contive para não me rir, mas foi mais forte do que eu, enquanto corria para te acudir. Mas tu levantaste-te logo e deste, entre ais e uis, o ar da tua graça: «Eu sou velho, mas ainda sei cair com estilo!» Durante quase um mês, doeram-te as costas e o pulso, mas dizias que era da cadeira, onde estou sentada, onde lias as notícias no tablet, e eu fingi acreditar em ti.

Continua quase tudo igual desde que te foste. O mundo não parou e a Terra continua esta sua dança giratória contra o tempo. Nada mudou, senão aqui dentro, nesta casa e em mim. As tuas piadas fazem-me falta. Éramos velhos, mas ainda sabíamos rir juntos!

E olho, de novo, o dedo apertado pela aliança que o abraça e sorrio.

Já faltou mais. Um dia destes, vou ter contigo!

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.