Eu marco-te a ti, tu marcas-me a mim, e a vida continua

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StockSnap / Pixabay

Somos feitos de momentos. Somos feitos das milhares de emoções que fomos sentindo, ao longo da vida, e dos sonhos que nos fizeram suportar coisas incríveis, que achámos nunca ser capazes de aguentar. Somos feitos das palavras mais nossas que dissemos ao outro e das outras, que ouvimos e que, passado todo este tempo, ainda não conseguimos esquecer, porque pareciam tanto ser ditas por nós.

Somos feitos de sorrisos. E de todos os abraços demorados que demos. Mas não só. Somos também feitos de todos os outros, tão apertados, tão íntimos, que nunca tivemos a oportunidade ou a ousadia de dar. Também somos feitos dos beijos a que nos entregámos com um sorriso e de todos os outros, que foram apenas sonhados, entre madrugadas longas e suspiros. Esses, às vezes, até nos pareceram muito mais reais e inesquecíveis do que os outros…

Somos feitos de memórias — esses fragmentos de tempo com paladar, aroma e tacto, com risos e gargalhadas, com choro e aflição. Somos feitos dos silêncios cúmplices, com tanto de nós lá dentro, que pareciam tão mágicos e incríveis, mas também daqueles que nos doeram, daqueles que nos marcaram: pela ausência de uma reação, pelo afastamento a que nos obrigaram, pela dor funda que foram incutindo em nós com o tempo…

Somos feitos do amor que sentimos — essa ternura quente que torna o coração maior, essa demonstração de afecto que vive nas pequenas coisas. E da paixão — essa explosão imensa de emoções, que parece fogo-de-artifício no nosso peito, que nos tira o fôlego, que nos faz sonhar e acreditar ser capazes de tudo e de lutar contra tudo. Mesmo nem sempre lutando…

Somos feitos das verdades difíceis que assumimos e que permitimos que nos levassem por uma vida diferente. Tão melhor. Mas também somos feitos das outras, que guardámos cá dentro, por medo, por culpa, por ignorância, desejando que a vida e o tempo as diluíssem um pouco mais em nós. Para não nos incomodarem tanto.

Somos feitos do que nos faz sentir o coração cheio e feliz, mas também do que lentamente o destrói. Porque também somos feitos da saudade que nos angustia, ainda, e que nunca trará o outro de volta, mas que nem assim conseguimos deixar de sentir. É por isso que também somos feitos da certeza absoluta de que só as pessoas maiores deixaram esta marca em nós. Porque só nelas encontrámos um reflexo de quem somos. Só elas foram, e continuarão a ser, parte de nós. Mesmo na ausência. Mesmo no adeus. Mesmo no nunca mais.

Eu marco-te a ti. Tu marcas-me a mim.

Deixamos um no outro um pedaço de quem somos, do que sentimos, do sentido mais íntimo da nossa existência, como se abríssemos o nosso coração ao meio e dele retirássemos um pedaço enorme de nós para dar ao outro. E deixamos de estar inteiros. Esse pedaço deixa de nos pertencer. E o outro, que nos deu um pedaço também seu, em retorno, deixa de ser inteiro. Passa, de algum modo, a pertencer-nos.

Eu marco-te a ti. Tu marcas-me a mim.

E é por o sabermos que sentimos vontade de prolongar o momento. É por o sabermos que, tantas vezes, regressamos ao passado e temos vontade de lá ficar, por instantes, só por instantes, envolvidos por esta consciência doce da marca que deixámos na vida um do outro. Esta consciência que comove, por ser tão bonita e por ter tanto de quem somos lá dentro. Nenhum de nós conseguirá voltar a ser quem era antes disto — antes deste instante, antes deste nós.

Eu marco-te a ti. Tu marcas-me a mim.

E, mesmo assim, mesmo depois disto tudo, dizemos adeus um ao outro.

E a vida continua…

Porque a vida continua sempre.

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