O James Bond que há em mim

Ilustração/Montagem © Laura Almeida Azevedo

Aí há uns dias, por causa das alterações que ando a fazer no design e nos conteúdos aqui no site, lancei um inquérito aqui para saber a opinião dos mais assíduos e atentos leitores sobre isto mesmo: o design e os conteúdos. A ideia era levar este feedback em conta em futuras alterações. Pareceu-me uma ideia gira para tentar agradar quem cá anda.

Vários leitores participaram. Quase todos de forma educada, sensata e grande parte deles diria que até «fofinha». Tenho a sorte de ter leitores que são «fofinhos» comigo e sei que isso é resultado de escrever sobre assuntos emotivos, com os quais se identificam, sentindo eles que os meus textos falam deles e não de mim. Isto torna ainda mais curioso o que vou contar a seguir.

Neste inquérito, os que acham que este espaço deveria falar apenas de amor demonstraram a sua opinião. Os que acham que poderia falar também doutras coisas — de mim, de viagens, de dicas para bloggers, entre outras coisas que sugeri — também. Mas, em todos os lugares (e este não é exceção), há sempre quem chegue do nada, caído de paraquedas, e, sem perder cinco minutos para perceber onde está, puxe dos galões para fazer declarações surpreendentes. E foi o que aconteceu.

Assim, onde eu perguntava «quais são, para ti, os pontos a melhorar?», este leitor paraquedista respondeu: «As emoções. És demasiado fria.» Larguei uma gargalhada. Quem anda por aqui há algum tempo também se deve estar a rir. À pergunta «se conseguisses descrever este projeto numa frase, qual seria?», veio a resposta: «Quando só consigo ver o meu umbigo.» E aqui, confesso, fiquei intrigada.

Fazendo uma comparação, isto vai ao encontro de outros comentários engraçados que, por vezes, recebo aqui: onde me dão conselhos de amor como resposta aos contos que publico. Faz-me lembrar o que alguns atores dizem em entrevistas: que, quando as pessoas não gostam duma personagem que eles representaram, há quem os critique na rua e até os insulte. Não pelo seu desempenho enquanto atores, mas por confundirem a ficção com a realidade.

O apetece(s)-me existe desde março de 2014. Mais de 3 anos. E tem, à data de hoje, 315 textos publicados, escritos por mim.

Destes, 262 são prosas e contos sobre o amor. 6 são sobre o meu livro. 5 são editoriais (sobre o blogue). 2 são «histórias reais» (sobre a Alice). 13 são motivacionais (onde tento passar uma mensagem importante a quem me lê). 2 são sobre ser blogger. 8 são do conto «Uma história de amor [im]possível». 15 são textos, claramente pessoais, do «dia a dia». E 2 são sobre os meus serviços (as ilustrações e a minha loja).

Isto significa que 262+6+5+2+13+2+8=298 textos são: ou ficção, ou focados no leitor, ou sobre o livro, ou profissionais. E 15+2=17 são focados apenas em mim, no meu dia a dia.

Podia terminar aqui. Para mim, estes números dizem tudo. Mas confesso que me dá gozo desconstruir isto. E aproveito para esclarecer algo importante.

Os contos e a prosa de amor que eu escrevo aqui não são reais. Mas, sim, literatura, ficção. Não, não são diários da minha vida amorosa. Quando escrevo estes textos na voz desta mulher — que, num dia, está cheia de saudades dele; no outro, já não o pode ver à frente; no outro, foi vítima de violência doméstica; e, no outro a seguir, é solteira há dez anos ou casada e com filhos — não estou a escrever sobre mim. Até pode haver um ou outro texto onde sim, mas não é regra. Na verdade, é a exceção. E é aí que reside a piada disto.

Além disto, embora adorando a ideia de viver uma vida sem rotinas, ainda não sou o James Bond. Infelizmente. Não me consigo multiplicar em várias pessoas ao mesmo tempo. E viver várias vidas, totalmente independentes e opostas entre si, num mesmo dia.

Essa pluralidade é precisamente o que torna a escrita de ficção fantástica e rica. A possibilidade de sermos quem quisermos, de escrevermos sob vários pontos de vista sobre um mesmo assunto — neste caso, o amor. E de chegarmos a todos, criando personagens e histórias e emoções universais. Claro, podem ser baseadas em factos reais. Mas não obrigatoriamente nos de quem escreve. Podem basear-se no que se viveu, no que viveu quem se cruzou connosco, num sonho que se teve, no que se gostaria de ter vivido, numa conversa que se ouviu num café, no que nunca se quereria viver. E isto despoletar uma história que é ficção, embora baseada em factos reais daqui, dali e de acolá, misturando tudo num bolo.

Isto tudo cabe na ficção. Aliás, este é o poder da ficção.

Não, não criei este espaço para desabafar sobre a minha vida amorosa, que é íntima, com centenas de milhares de leitores que nunca vi na minha vida. Aliás, no extremo, acho que nunca mencionei sequer se sou casada, solteira, divorciada. Quem me conhece sabe que sou reservada. Falo muito pouco sobre mim. E prefiro muito mais ouvir do que «obrigar» alguém a ouvir-me. Mas, mesmo que falasse todos os dias sobre mim, a minha vida, a minha rotina (que é algo que até pretendo fazer daqui para a frente) ou sobre os meus dramas, um blogue não obriga ninguém a ler o que quer que seja. Só lê quem quer.

Acima de tudo, e independentemente do registo em que escrevo, este espaço é feito por mim. Não importa se o apelido de blogue ou de «um site onde publico textos de ficção». E, por mais que um blogue seja ou tente ser impessoal, há sempre uma identidade em tudo o que nele existe: porque tudo o que nele existe vem da mesma fonte, da mesma pessoa. Por isso, sim, todos os blogues têm o seu «umbigo». E é isso, a que eu chamo de «cunho pessoal», que torna a internet num lugar fascinante, onde todos têm lugar.

A propósito, e já que aqui estou, agradeço a todos os que responderam ao inquérito. É gratificante saber a vossa opinião fundamentada e perceber que uma mudança seria bem-vinda. E eu adoro experimentar coisas novas. Mesmo que não saiba se o resultado será pior ou melhor, uma mudança traz consigo um desafio. Pela aventura. Pela experiência nova. Pela quebra na rotina. Mas isto, de gostar destas coisas, deve ser obra do James Bond que há em mim.


P.S.1: Quem ainda não respondeu ao inquérito, pode fazê-lo aqui.
P.S.2: Há muito que não me ria a fazer um cartaz, como foi o caso de hoje para este texto.
P.S.3: Não há. Só aqui está porque dizem que «não há duas sem três».


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Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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