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A paixão arrebatadora da Alice: um ano depois

A paixão arrebatadora da Alice: um ano depois

Foi em dezembro do ano passado que contei aqui a história da Alice. A história de uma paixão arrebatadora que ressurgiu ao fim de muitos anos. A história de uma mulher casada que, depois de quatorze anos de casamento, reencontrou um grande amor. E que viveu meses de angústia a tentar contrariar o que voltava a sentir.

A Alice foi uma mulher de coragem. Mas viveu no limbo durante mais tempo do que alguma vez imaginou. Chorou mais lágrimas do que aquelas que pensou ter. Sentiu medo, culpa, revolta, dor, solidão. Foram essas emoções todas que a impediram de se divorciar. Foram essas que a limitaram. Foram essas que a levaram a viver em segredo e a tentar contrariar, todos os dias, o que estava a sentir por este homem. Para tentar ser a mulher e a mãe que achava que devia ser. Para não desiludir os outros. Para não se desiludir a si.

Um dia, sentiu também coragem, desejo de mudar e uma vontade mais forte de voltar a ser feliz. Já não se reconhecia. E olharmo-nos ao espelho e não nos reconhecermos é duro. Percebeu que só conseguiria voltar a ser feliz se recomeçasse do zero: porque a vida que tinha tido nunca mais voltaria a ser igual. E como estava já não lhe chegava.

Desde que escrevi sobre esta história, que acompanhei tão de perto, que tenho recebido centenas de mensagens. Querem o contacto da Alice para desabafar com ela. Querem o texto para partilhar com uma amiga e não o encontram. Querem desabafar comigo como fez a Alice, porque foi assim que a conheci.

A história da Alice retrata muitas histórias reais que são silenciadas por medo, por vergonha, por culpa. Tenho conhecido tantas Alices desde então.

Por elas, é importante reforçar isto:

1. A Alice adiou divorciar-se com medo de viver (e de se sentir) sozinha. Nunca tinha passado por essa experiência. Hoje? Hoje, a Alice adora viver sozinha. Faz o que quer, quando quer, ao ritmo que quer. Dança em casa, recebe amigos, acompanha a filha, decora tudo ao seu gosto e adora esta liberdade, esta autonomia. Aconteceu-lhe o que quase sempre acontece a quem vive sozinho (e eu falo também por experiência própria): «Primeiro, estranha-se. Depois, entranha-se.» Habituou-se às coisas boas que esta experiência lhe dá (e que são tantas) e o facto de estar sozinha fê-la redobrar o amor por si e a sua autoconfiança — porque, se ela não for capaz, ninguém o será por ela.

2. A Alice adiou divorciar-se com medo de não ser financeiramente independente. Medo de não conseguir pagar as contas da casa e as despesas da filha. Medo de ser uma incapaz. Hoje? Hoje, a Alice tem um emprego estável, é independente e sente-se útil. Paga todas as contas e ainda sobra para comprar uma peça de roupa, para sair com as amigas e para decorar a sua casa ao seu bom gosto.

3. A Alice adiou divorciar-se com medo que a família e os amigos não a apoiassem. Achava que a iriam julgar, tentar demover. Hoje? Hoje, a Alice mantém todos os amigos que tinha e ainda fez amigos novos. Pessoas que encontrou pelo caminho, que estão na mesma situação, com quem se identifica e que estão sempre lá. A família? Ora, a família, como é óbvio, essa, esteve e estará sempre lá para o que precisar.

4. A Alice adiou divorciar-se com medo que nenhum homem voltasse a olhar para ela. Porque, depois de tantos anos indisponível, já tinha desaprendido a mulher interessante que era. Hoje? Hoje, só está sozinha porque quer. Não lhe faltam pretendentes. E, às vezes, bem que ela gostava que sim, porque são tantos os homens que andam sempre atrás dela que até a cansam.

A Alice é um exemplo. Um exemplo de que, por mais difícil que seja tomar uma decisão destas, é possível tomá-la e voltar a ser feliz.

Podia ter corrido mal? Podia. Mas não correu. Porque a Alice é uma mulher de força. Mas essa força não esteve sempre visível. Foram muitos os momentos em que fraquejou, em que achou que não era capaz, em que quis desistir. Foi no dia em que tomou a grande decisão que percebeu a força tremenda que tinha. E que tem.

Porque escrevo tudo isto? Para que sirva de exemplo de força para todas as Alices que me estão a ler, que querem muito recomeçar, mas que têm medo de não merecer uma nova oportunidade para serem felizes.

Essa oportunidade pode estar mesmo ali e a história da Alice poderá vir a ser a vossa história: nas coisas boas também.


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Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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