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Viver não é fácil, e ainda bem

Viver não é fácil, e ainda bem

Fotografia © Carina Maurício | A minha visão do mundo, da vida e das coisas.

Lembro-me de, quando era pequena, imaginar mil e uma coisas sobre o meu futuro: como queria ser, o que queria fazer, quantos filhos iria ter, se iria casar, em que cidade iria viver. Imaginava mil e uma coisas porque é isso que fazemos quando olhamos para o futuro: imaginamos. Não fazemos a menor ideia se o que imaginamos vai acontecer, mas queremos fazer uma ideia de quem vamos ser e de como vai ser a nossa vida. Mesmo que falhemos nas nossas expetativas, é também isso que nos ajuda a definir os nossos objetivos, a delinear o nosso caminho, a antecipar as nossas escolhas.

Mas, em todas as vezes que imaginei a minha vida adulta, vi alguém completamente diferente de quem sou hoje. Sim, acertei em muitos aspetos: deixei, como sempre quis, a minha cidade natal para viver em Lisboa; tive o privilégio de viver sozinha muitos anos; tirei o curso que queria e trabalho na área que sempre desejei; e, se sempre me imaginei a escrever, a verdade é que é também isso que faço hoje. Mas isso faz de mim quem imaginei? Não. Continuo a ser tão diferente.

Sinto-me muito mais nova do que alguma vez pensei que me iria sentir a caminho dos 40 anos. Há dias em que me sinto uma miúda. Não, há dias em que tenho a certeza absoluta de que ainda sou uma miúda. Apesar de imaginar que com esta idade teria tantas respostas na ponta da língua, lamento dizer isto: mas continuo sem as ter. Aliás, quantos mais anos passam mais percebo que é difícil existir respostas certas seja para o que for. Também continuo à procura do que me faz feliz. Porque posso ter encontrado muitas coisas que me façam feliz, mas estou sempre à procura de outras. E também continuo a desejar coisas diferentes das que tenho. Não por não dar valor às que tenho, mas porque preciso de novos estímulos e de mudar. Se há muitos momentos em que me sinto confiante, em que reconheço o meu valor, em que tenho certezas, ainda há muitos outros em que me sinto insegura em relação ao que sinto, quero e penso. E tudo isto deita por terra a mulher segura, estável e monótona que via, com os meus 15 anos, em qualquer mulher de 40 anos.

O que nunca imaginei também foi que seria tão difícil crescer. Sim, é difícil crescer, é difícil viver. Somos colocados à prova constantemente. A vida muda tantas vezes, e nós não temos outra alternativa senão adaptarmo-nos. Vivemos experiências fantásticas, inesquecíveis, mas também percebemos que elas não duram para sempre, e isso custa. Conhecemos pessoas importantes, importantes na nossa vida, e, um dia, a vida ensina-nos que temos de estar preparados para as perder. Porque a vida também nos leva quem nos trouxe. Trabalhamos horas a fio sem garantias de estarmos a construir um futuro certo. Vivemos numa rotina que, tantas vezes, nos amarfanha, quando queríamos viver uma vida que todos os dias nos surpreendesse. Vivemos momentos tristes, duros, em que percebemos que só podemos contar connosco. Depois, vivemos outros que nos fazem acreditar nas melhores coisas da vida, porque elas também existem. E é esse equilíbrio diário, entre umas coisas e outras, que exige verdadeiramente de nós. Esse equilíbrio que nos permite que doa, sem deixarmos de sorrir. Esse equilíbrio que nos permite perder, sem deixarmos de acreditar que amanhã podemos ganhar. Esse equilíbrio que nos permite fazer as escolhas certas, mesmo sem certezas. Esse equilíbrio que nos permite ser felizes, apesar dos momentos em que não o somos.

Crescer não é fácil, mas é uma experiência única. Viver não é fácil, mas é o maior privilégio que temos. E há que aproveitá-lo até ao último segundo.

Quando penso na pessoa que imaginei ser com esta idade, sei que estou a léguas dessa pessoa que imaginei. Aos 37 anos, estou tão longe de ser uma versão finalizada de mim. Pelo contrário. Estou em constante mudança, evolução. Todos os dias aprendo coisas novas e todos os dias mudo um pouco de como vejo a vida. Todos os dias me sinto uma adolescente e todos os dias, como a adulta que sou, decido coisas importantes na minha vida. Todos os dias sou colocada à prova e todos os dias, apesar do embate, decido seguir em frente. E ainda bem. Porque é isso, sobretudo, que é viver.


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Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes.

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