Dizer-lhe adeus

Ali estava ela, embrulhada sobre o seu próprio corpo, deitada na sua cama, a olhar a pequena fresta de luz que dançava na janela. A música a embalar-lhe os pensamentos e as mãos frágeis, debaixo da almofada, a aconchegarem-lhe o rosto que tinha tanta, mas tanta vontade de chorar.

Metida sobre si, sem conseguir contrariar o tempo, sem conseguir contrariar as emoções que lhe ferviam no peito, sem conseguir impôr-lhes um limite, deixava-se assim ficar. Sem conseguir definir a linha que separa o amor pelo outro do amor por si própria. Sem conseguir evitar a dor. Sem conseguir erguer a cabeça, abrir as janelas do quarto, olhar a rua e encetar o primeiro passo no chão — um de cada vez — na direção do que ainda vivia lá fora. Na direção dos que precisavam de si, do seu sorriso. Na direção dos que a amavam. Na direção dos tantos sonhos que tinha e que, agora, lhe pareciam absolutamente frágeis.

Ali estava ela, sem vontade de nada. Estava entregue à melancolia a que só as grandes paixões conseguem entregar os corpos que, como o dela, estão frágeis, nus, crentes, despidos de defesas. Estava entregue ao abandono, o abandono que sentia dentro de si. O dele. O seu próprio abandono. Porque não queria saber. Havia momentos em que já não queria saber se lhe doía, se lhe custava, se o tempo não voltaria atrás. Não queria saber de nada além daquilo: de sofrer; de sofrer tudo de uma vez; de sofrer tudo o que precisava; de sofrer até não restar nem mais uma gota de lágrimas, nem mais um pedacinho do corpo a doer. De sofrer até à exaustão, porque só assim acreditava que conseguiria ficar como nova. Só assim, no extremo da dor, sem se debater com o que sentia, só assim, sem tentar mentir a si própria, sabia que poderia recuperar.

No silêncio, as lágrimas insistiam em sair. Rebentavam-lhe no olhar sempre que pensava nisto. Apertavam-lhe o coração. Eram lágrimas que não a deixavam respirar, que não a deixavam esquecer. Eram lágrimas que tentava calar, contrariando-se, argumentando, impondo-se. Mas de nada adiantava. Sentia-se triste e não tinha forças para as vencer.

Um dia, quereria que a dor passasse. Sim, um dia. Porque a vida sabia tão melhor quando não doía. Sabia que tinha sorrisos e gargalhadas para dar; que tinha sonhos por realizar; que tinha escolhas a fazer e que queria ser uma pessoa melhor a cada dia que passava. Sabia que a música deveria ser sentida, no corpo, também para dançar, para libertar os braços e deixar as emoções voar, livres, felizes, e não apenas para chorar a dor da perda, a dor da ausência, a dor do adeus. Sabia que tinha olhos que queriam ver o mundo, o melhor dele, e que não os iria fechar independentemente de tudo — mesmo que a dor a obrigasse a fechá-los, ainda que por momentos, agora.

Mas agora, apesar disso tudo, apesar de se saber forte, apesar da vida que sentia em si, da vontade de ser feliz, estava ali. Agora, apesar de tudo, queria a dor, queria as lágrimas, queria o luto. Queria despedir-se do que não tinha sido. Queria despedir-se do que nunca viria a ser. E dizer-lhe adeus ao seu próprio ritmo…

Com calma.

Com tempo.

Com amor.


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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