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Doía-lhe tudo na dura possibilidade de nunca o ter...

Doía-lhe tudo na dura possibilidade de nunca o ter

Fotografia @ Pixabay

Doía-lhe. Doía-lhe a ideia de se ter deixado levar pelas emoções. E de ter perdido mão no que sentia, na razão que sempre encontrava para afastar de si as pessoas que ia conhecendo, nos medos a que se agarrava para que nada a desconcentrasse da pessoa que ainda queria ser.

Doía-lhe. Doía-lhe não conseguir deixar de pensar nele, não conseguir deixar de o querer. Por mais que respirasse fundo, o peso não lhe saía do peito. Não havia ar que chegasse para a amparar da tontura que sentia. E da queda. Fechava os olhos e contava até vinte. «Isto vai passar. Tu és forte. Isto vai passar!», murmurava entredentes com os olhos raiados de lágrimas. Lágrimas que queriam ser livres.

Doía-lhe o corpo. Por dentro. E a voz dele aos seus ouvidos, as palavras que tentava não reter no seu coração. Doía-lhe a ausência, mas também estarem perto. Perto, mas não um só. Perto, mas a planearem caminhos separados. Sem lhe poder dar um beijo. Sem o poder abraçar com toda a força com que gostava dele, e que era tanta. Só para lhe sentir o calor do corpo na pele e o coração a bater junto ao seu.

Doía-lhe. Doía-lhe tudo nessa dura possibilidade de nunca o ter; nesse rasgão aflito provocado pelas palavras dele; nessa dureza fria de não restar outra hipótese… senão aceitar. E esquecer.

Doía-lhe. Desta maneira doce que quer cuidar. Desta maneira abrupta que faz queimar a pele. E que faz doer a espera. Desta maneira triste que aperta o coração: porque o faz, tão inutilmente, sonhar.


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Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes.

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