Podíamos tentar

Fotografia @ Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Se disser que me surpreende completamente o facto de aqui estar, minto. Quando estamos numa relação, passa-nos tudo pela cabeça. E, se há alturas em que não nos imaginamos sem a pessoa que temos ao nosso lado, há outras em que fazemos questão de tentar imaginá-lo. Quase numa espécie de exercício. Só para testarmos os nossos sentimentos. Só para percebermos o que iríamos sentir. Só por isso. Mas há também outras vezes em que imaginar não chega. Precisamos de mais do que isso. Precisamos da mudança, da rutura. Precisamos da perda.

Sento-me na cama do quarto de hóspedes da Raquel e fico quieta neste desconhecido silêncio sem ti. E, apesar de ter imaginado tantas vezes este momento, aquilo que nunca imaginei foi que, quando aqui estivesse, de malas aviadas no chão doutro quarto, esta distância e este silêncio entre nós iriam saber-me a isto: a nada.

Lembro-me sempre da minha preocupação extrema em medir grande parte das minhas palavras quando discutíamos. Podia haver irritação, raiva, descontrolo, vontade de explodir, mas controlava-me. Não queria dizer nada de que me arrependesse mais tarde. Nada que pudesse levar-te de mim. Os anos de uma relação fazem-nos isto: criam medo. Tinha medo de já não saber viver sem ti. Medo de uma vida diferente, embora sentisse dificuldade, por vezes, em perceber ao certo o valor do que ainda tínhamos. Mas o medo da mudança era aterrador.

Por isso, quando saí da nossa casa, quando fechei a porta atrás de mim, quando dei os primeiros passos no sentido oposto a ti, qual foi a minha surpresa? A leveza inesperada com que o fiz. À medida que me afastava, era uma leveza ainda maior. Cheguei ao carro, sentei-me ao volante e fechei os olhos. Nem uma única lágrima. Em tempos, acreditei que choraria um oceano inteiro no dia em que me viesse embora. Mas nada. Não me doeu. Nem sequer me tirou o fôlego. Pelo contrário. Senti a adrenalina e uma vontade súbita de me atirar para o futuro. Sem ti.

Quis ir ver sozinha o nascer do sol na praia ainda vazia. Pisei a areia molhada. Fotografei o mar. Senti o sossego, a brisa fresca da manhã. Deitei-me ali, em silêncio. Respirei fundo, como já não fazia há tanto tempo. Pausei a minha vida. E, quando o sol nasceu, senti os primeiros raios da manhã na minha pele, e fui-me apercebendo daquilo que poderia fazer da minha vida a partir dali.

Imaginei as dezenas de vezes em que, agora, poderia sair cedo de casa para fotografar. Sem ter de dar justificações. Poderiam ser muitas. Todas as que quisesse. Poderia dormitar no carro com a luz alaranjada a desenhar traços quase fluorescentes no céu. Poderia beber o café da manhã numa esplanada virada para o mar. Poderia escrever sentada na areia. Poderia pintar o cabelo de vermelho forte, sem ter de justificar os meus impulsos. Poderia rir com um amigo acabado de conhecer, sem ter sempre medo de que isso nos colocasse em causa. Poderia ir dançar até tarde. Poderia fazer uma tatuagem. Poderia tudo.

Revisitei a maioria dos caminhos que fazia antes de nós. Os prédios. Pisei a calçada. Fui aos cafés aonde ia. Consegui sentir, de novo, os cheiros — e ver a vida pelos mesmos olhos que tinha naquela altura. Consegui ter menos dez anos num espaço de duas horas. Tudo me foi trazido, de novo, à memória. Tudo: incluindo eu.

E vi à minha frente os rostos e as expressões dos olhos, os desenhos dos lábios, e ouvi as vozes de quem já não fazia parte da minha vida. Soube o que era acordar na minha casa de solteira e, sentada no sofá da sala, com a chávena de café quente nas minhas mãos, ficar ali apenas a apreciar a luz do verão refletida nos vidros. Soube o que era o silêncio e o que eram as noites quentes, com as janelas abertas, que traziam uma aragem que dançava pela sala, enquanto eu escrevia até ser madrugada. E, ao saber tudo isto — só de estar novamente ali —, soube principalmente o que era sentir que o futuro poderia ser sempre aquilo que eu quisesse fazer dele.

O que mais me incomodou, ao longo dos nossos anos juntos, foi sempre esta ideia claustrofóbica de que eu também tinha mudado com a nossa vida. Que me tinha perdido de mim. Que, algures, mesmo que eu quisesse fazer as coisas que sempre tinha feito, mesmo que eu quisesse fazer os mesmos disparates e continuar a sentir a vida da mesma maneira que antes, não podia. Porque não era capaz. Porque não tinha direito. Esta sensação de que tinha perdido o direito de ser apenas a Carolina a partir do momento em que me tinha permitido ser a mulher do Mário — a tua mulher. Esta luta interna constante entre tu e eu. Esta necessidade de escolher. Esta incapacidade de assumir que não queria ter de fazer escolha alguma. Que tinha direito a ser ambas as mulheres. Que tinha direito a ser quem eu era e tinha direito a ser quem eu era contigo. Que também é isso o amor.

Na cama, já de noite e embalada pelo som dos carros, fico em silêncio a olhar este quarto. O quarto de hóspedes da casa da Raquel. As malas no chão. Sem ti. Finalmente, sem ti. Todos já dormem. Todos menos eu. Atiro o corpo para trás e deito-me à espera de que o sono venha. Sou livre. Oiço o barulho dos carros e o silêncio que fica entre eles. Não estás aqui. Tenho espaço de sobra na cama. Tenho todo o tempo do mundo à minha frente — e a possibilidade de fazer dele o que eu bem entender.

E é bom ter-me de volta. Mas, à medida que vou aguardando pelo sono, à medida que vou acalmando as minhas emoções, a tua imagem vai ficando cada vez mais nítida na minha memória. Vejo-te à minha frente. Sinto-te o perfume. E dou comigo a pensar que talvez conseguisse explicar-te, com mais calma, que as saudades que sinto são de mim — do simples facto de ser eu própria e de sentir que tenho o direito de pensar só em mim em determinados momentos — e não propriamente da vida sem ti, como se estar sem ti fosse, por si só, uma coisa melhor.

E adormeço, por fim, a sentir que podíamos tentar de novo.


Este texto é um dos 77 textos que podes encontrar no meu livro «Apetece(s)-me» — à venda na FNAC, WOOK, Bertrand e Hipermercados.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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