Há acasos que nos mudam para sempre (Capítulo 7)

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Antes de leres esta parte da história,
lê o Capítulo 6 aqui.

10 de março de 2017

Alice:

Era Dezembro quando nos vimos pela primeira vez. Lembro-me como se fosse hoje. Os teus cabelos soltos, caídos nos teus ombros, pareciam dançar ao sabor do vento. Tinhas uma gabardina cinzenta e umas galochas encarnadas. Lembro-me destes pormenores porque, no passeio, à espera que o sinal ficasse verde, observava a forma como, do outro lado da estrada, te apoiavas num pé e, depois, no outro; a forma como, distraída de todos, olhavas o arco-íris no céu com o mesmo deslumbramento da minha sobrinha de sete anos.

Quando o sinal ficou verde, confesso que, no meio das dezenas de pessoas que se apressavam a atravessar a estrada, tive de fazer alguns malabarismos para passar rente a ti. Não te conhecia. Tu não me conhecias. Mas senti vontade de saber, pelo menos, ao que cheiravas. Uma mulher tão bonita certamente só poderia cheirar bem. E assim foi. Os teus cabelos soltos, livres, a libertarem o aroma das tulipas. O teu olhar luminoso ainda preso ao arco-íris. E sorrias. Sorrias devagarinho, sem dar por ninguém.

Sim, Alice, poderia ter sido tão mais poética a primeira vez que te vi. Para mim, foi. Mas, sim, não me cruzei contigo pela primeira vez durante uma ópera — até porque, como sabes, eu não sou homem de óperas. Não te encontrei no meio da poesia que, por vezes, leio em cafés de literatura. Não me esbarrei contigo ao cruzar da esquina. Infelizmente, também não trazias contigo livros alguns, senão até poderia ter sido útil esbarrar contra ti — só para ficar ali, uns segundos, a ajudar-te a apanhá-los. Mas essas coisas tão oportunas só acontecem nos filmes. Também não te salvei de nenhuma doença, de nenhum acidente. Não fui um herói. Fui apenas um homem do outro lado da passadeira, em cuja presença nem sequer reparaste, porque estavas demasiado ocupada a contemplar um arco-íris. E isso, para mim, já tem toda a poesia.

Penso, tantas vezes, nisto. Em como, por vezes, não é preciso muito. As coisas grandes acontecem quando menos esperamos. Encontramos pessoas nos momentos mais inesperados — e, por vezes, mais inoportunos. No entanto, por algum motivo, elas estão lá. Por algum motivo, esbarramos contra elas e deixamos que um simples acaso comande todo o nosso futuro. Deixamos que uma mera coincidência nos apaixone, nos seduza, nos prenda, nos magoe, nos devaste e, em alguns casos, nos mude para sempre. E, apesar da dor que esse acaso, por vezes, inflige em nós, fazemos um esforço para lhe dar um significado maior. Porque queremos acreditar que houve um motivo maior para tudo ter acontecido como aconteceu.

Durante o resto do dia, pensei em ti muitas vezes — na mulher que me tinha distraído do semáforo, da passadeira, das pessoas, do instante. Lembro-me de, ao final da manhã, sentado na minha secretária, olhar as janelas altas e observar a cidade lá fora. E de pensar no quanto gostaria de me cruzar contigo mais uma vez. Por acaso. Por mero acaso. Só para poder ver os teus olhos brilhantes outra vez. Só para sentir o aroma dos teus cabelos longos. Só para me voltar a deslumbrar com a forma como um pequeno pormenor parecia deslumbrar-te.

Achei que nunca mais te veria, Alice.

Estava tão enganado…

Vicente

Lê o Capítulo 8 desta história,
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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.