Tu não estás só!

Fotografia © Pixabay

E se eu te disser que este texto é para ti? Acreditas em mim? Talvez sim. Talvez não. Por que motivo escreveria eu um texto para alguém que nem conheço? E por que motivo estaria aqui, a olhar para este écran vazio, à procura das palavras certas para chegar a ti, que vives apenas desse lado do meu écran? Mas, hoje, decidi escrever-te um texto. Sim, para ti, que continuas a achar que este texto só poderá ser para outra pessoa qualquer, que não tu.

No entanto, sim. Hoje, este texto é para ti.

Para ti, que olhas para o lado, como se nada fosse, e quase assobias, quando te perguntam se estás feliz. Para ti, que teimas em fazer-te de forte mesmo quando a dor te aperta por dentro, e que achas que terás sempre capacidade para suportar tudo — mesmo quando o «tudo» é muito maior do que julgaste possível. Este texto é para ti, que achas que consegues camuflar a tristeza, distraindo-te com outras coisas, ocupando-te com a família, com o trabalho, com os amigos, e arranjando hobbies novos a cada três meses. Sim, para ti, que preferes perguntar aos outros como estão, saber dos seus dias, conhecer-lhes as preocupações, ouvir-lhes as histórias — porque sabes que, enquanto estiveres a falar dos outros, enquanto permitirem que as suas histórias sejam um pouquinho tuas, não pensas em ti. Não pensas nas tuas próprias histórias, nas tuas próprias preocupações, na tua própria dor.

Sim, este texto é para ti, que achas que tens vindo a carregar o mundo nas costas e, mesmo assim, quando te deparas com a possibilidade real de desistir, ergues a cabeça e soltas um destemido: «Desistir? Eu? Nunca!» Para ti, que, apesar de tudo por que passaste, nunca, mas nunca baixaste os braços — nem mesmo naqueles dias em que achaste que sim, que os estavas a baixar. Porque eu sei que, apesar de seres assim, forte, capaz, há tantas alturas em que não, não está tudo bem. Há tantas alturas em que queres desistir. E em que te sentes frágil, à deriva, incapaz de dar mais um passo. Mesmo assim, sabe-se lá como e apesar de tudo, arranjas sempre força para dar mais um. E, depois, outro. E sempre mais um passo de cada vez.

Este texto é para ti, que me lês, sim. Porque eu sei — embora não o digas em voz alta — que há momentos em que também precisas que te animem, que te digam palavras de força, que te estiquem a mão e que apertem a tua mão com força, que te deem um abraço sem tempo. E que se deixem ficar assim, ao teu lado, em silêncio — sem exigirem nada de ti, sem julgamentos. Este texto é para ti porque tu não precisas de quem se sinta no direito de se meter na tua vida; de quem queira à força resolver os teus problemas ou, e o pior de tudo, os teus sentimentos — como se os sentimentos pudessem ficar resolvidos em três minutos de conversa.

Este texto é para ti, que queres sempre ter certezas. Para ti, que não gostas de viver nos «talvez», nem nos «um dia destes». E para ti, que te agonia o sentimento que te invade, quando deitas a cabeça na almofada — de frustração, de vazio, de impotência, de vontade de mais.

Este texto é para ti, que ainda tens sonhos por realizar — e tantos! — e que te culpas por não teres ainda lutado verdadeiramente a sério por cada um deles. Para ti, que os adias com o argumento de que ainda há tempo, apesar de haver tantos momentos em que percebes, finalmente, que o tempo não chega para tudo.

Para ti, que guardas tantas palavras só para ti, porque queres ser esta pessoa justa, ponderada, correta e «boazinha» — nem que para isso tenhas de andar a remoer emoções, sentimentos e vontades, em silêncio, dias a fio. E, quando percebes que o preço disso é, por vezes, não seres tudo isso contigo, já é tarde.

Este texto é para ti, que tomaste decisões difíceis com uma aparente certeza absoluta, como se fossem as decisões mais óbvias do mundo, mas que continuas, ainda hoje, e em segredo, sem a certeza de terem sido as decisões mais certas… para ti.

E para ti, que, independentemente da idade que tens, queres arriscar algo diferente. Mas falta-te a coragem. E porquê? Tu sabes porquê. É que, apesar de saberes que já não tens idade para condicionar as tuas decisões em prol do que os outros sentem, pensam ou esperam de ti, custa, não é? Custa mandá-los à fava e seguir o coração.

Este texto é para ti, que tens dias em que percebes, ainda melhor do que noutros, que esta vida — esta vida que vives, esta vida que não tem tempo ilimitado, esta vida que pode acabar já amanhã — é só tua. E que nada, nem ninguém deveria ter o direito de influenciar as tuas escolhas, determinar os teus limites, condicionar as tuas vontades e opções.

Este texto é para ti, porque eu sei que há dias em que queres gritar: «Deixem-me em paz!» Tantos dias. Apesar disso, não o fazes. Porque uma outra parte de ti sabe também que os outros importam, porque nunca serias verdadeiramente feliz sem eles. E é por isso que te vais permitindo ir adiando…

Hoje, este texto é para ti, que começaste este texto a olhar para o lado, a assobiar, como se nada fosse contigo e como se não soubesses, já ali, que estas palavras, sim, são para ti. Por orgulho. Por vergonha. Porque sabes que, quando baixas o escudo, ficas vulnerável. E isso é meio caminho andado para doer. E tu não queres que doa, pois não? Não depois de ter levado tanto tempo até aprenderes a viver com essa tua carapaça. Não depois de ainda te lembrares de como era quando ainda não a tinhas tão resistente. E eu sei que a palavra «fraqueza» te incomoda. Que não a queres na tua boca. Porque «dos fracos não reza a história». E tu tens de ser forte, não tens?

Sim, hoje, este texto é para ti — que, tal como eu, sabes que este texto é, afinal de contas, para nós. Para todos nós que queremos ser fortes, que queremos aguentar tudo, que queremos sempre ir mais longe, que queremos continuar a acreditar, que nunca aceitamos desistir — a menos que essa desistência seja o único caminho para lutar por outra coisa melhor. Para todos nós que, por pensarmos também nos outros, por sermos sensíveis a eles, permitimos que esse nosso respeito pelos outros nos faça lutar menos por nós — por quem somos, pelo que verdadeiramente queremos. Às vezes.

E sabes por que te escrevo este texto hoje? Porque me apetece dizer-te isto, que é tão simples, mas que, volta e meia, também faz falta saber:

Tu não estás só!


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

  1. Mto bom Laura!…escrita suave e pura!..mtos parabéns e força para continuar!…

  2. Estou só sim , isso se nota no meu dia a dia , nos meus jantares solitários , nos dias que nem Janto só para não ter que fazer comida , nos dias que declinam estar comigo , e nos outros que já nem pergunto para não ter que ouvir não . Claro que estou só .
    É uma tentativa de ajuda , mas não ajuda , só me lembra que nada disto faz sentido . Estar só sente -se, vai se sentindo …todos os dias , não há como disfarçar essa condição .

    E agora vou me deitar , novamente só !

  3. Maria João

    15 Setembro

    Obrigada! ❤️

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