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Todos os dias me lembro de ti (Capítulo 6)

Todos os dias me lembro de ti (Capítulo 6)

Antes de leres esta parte da história,
lê o Capítulo 5 aqui.

24 de fevereiro de 2017

Vicente:

Esta semana, houve um acidente horrível. Um incêndio enorme que se alastrou por toda uma população, destruindo casas, carros; matando animais, pessoas. Foram dezenas os que morreram por causa de um fogo. Um fogo que parecia um muro enorme, gigante, avassalador, a derrubar a vida, o trabalho e os sonhos destas pessoas. Pessoas como eu, como tu, como nós…

Fiquei impressionada. Foi com dificuldade que li e vi as notícias porque me era impossível conter as lágrimas ao imaginá-las a verem a morte a aproximar-se. E a saberem que nada conseguiam fazer para a evitar. A ver aqueles de quem gostavam a morrer à frente dos seus olhos, sem nada poderem também fazer para o evitar.

Não há palavras que cheguem para falar disto porque tudo o que eu possa dizer são só palavras de quem não passou por este inferno. De quem está vivo e cá fica para o contar. Às vezes, sobreviver deixa-nos contentes. Noutras, não se percebe porque aconteceu aos outros e não a nós. Porque os outros não são menos do que nós — porque foram eles e não eu?

Mas tudo isto fez-me pensar na vida em si e, claro, na minha própria vida. Afinal de contas, é assim que somos: entendemos a dor dos outros, mesmo não passando por ela, quando a imaginamos em nós, quando nos imaginamos a passar pelo mesmo do que eles. E isto em nada é egoísta. Isto somos nós a tentar colocar-nos no lugar dos outros. Há quem não se dê sequer ao trabalho de o tentar fazer, porque o seu umbigo é demasiado… grande.

Esta semana houve este incêndio enorme, que foi esta avalanche de fogo e de terror, que devastou vidas. E eu não consegui evitar pensar no quão efémera é a vida em si — e na obrigação que temos de dizer aos outros, de quem gostamos, o quanto gostamos deles. Porque nunca sabemos se amanhã teremos outra oportunidade para o fazer.

Inevitavelmente, pensei em ti.

Que nos afastámos da mesma forma repentina com que nos aproximámos. Que a nossa vida se desuniu de um segundo para o outro. Que o que restou foi silêncio — porque tantas palavras, embora sentidas, não encontraram a coragem nem o momento certo para serem ditas. Que foram feitas escolhas — e que essas escolhas, embora tenham parecido ser as mais fáceis, embora tenham parecido ser as mais justas, não o foram. Que, apesar do adeus, apesar do fim, nada é mais definitivo do que a própria morte. Que só ela é, de facto, o único fim que existe. O único definitivo, que não podemos adiar, que não podemos repetir.

Tudo o resto encerra em si mesmo o finito que nós lhe desejarmos dar. Tudo o resto só depende de nós. De verdade.

E é por isto, Vicente, que temos de ser justos com o que sentimos e com aqueles que amamos.

É por isto que temos a obrigação de lutar pelos nossos sonhos, pela nossa vida. É por isto que não é justo adiar as escolhas que nos fazem felizes, adiar o reconhecimento e o pedido de desculpas, adiar até o próprio amor. É por isto que devemos domesticar o orgulho que nos cega e que nos impede de perdoar aqueles de quem gostamos e sem os quais sabemos que nunca voltaremos a ser felizes. É por isto que, quando desistimos fisicamente de alguém — porque nos vamos embora, porque lhe dizemos que não ou porque não temos força suficiente para lutar por ele —, mas o nosso coração ainda continua lá, naquele momento, naquela despedida, esta tem de ser a verdade que, por mais inesperada, por mais difícil, por mais que se contradiga, deve ser dita.

E em voz alta!

Vicente, hoje escrevo-te e leio-te estas palavras em voz alta — talvez assim, mesmo não as lendo tu, me possas ouvir, aí dentro, no teu coração:

Onde quer que estejas, quero que saibas que, apesar de eu não estar aí, estou sempre, sempre contigo. Que todos os dias me lembro de ti. Que me posso ter ido embora da tua vida, mas nunca te tirei daqui de dentro. Que, onde quer que estejas e independentemente do que acontecer, eu estarei sempre aqui, a admirar-te, a gostar de ti, a desejar-te o melhor. Quero que continues a ser quem és, de coração enorme, com essa sensibilidade que te carateriza e que te permite olhar o mundo com olhos mais atentos. Onde quer que eu esteja, vibrarei sempre por cada conquista tua, que apreciarei ao longe, mesmo em silêncio.

Eu acredito em ti. Acredito que és capaz de realizar todos os sonhos que tiveres. E eu sei que tens sonhos grandes.

Daqui, deste lado da vida que nos separa, desejo que sejas verdadeiramente feliz… mesmo que não seja eu o motivo dessa felicidade.

Com amor,

Alice

Lê o Capítulo 6 desta história,
aqui. ❤️


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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