Tu não tens culpa (Capítulo 5)

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Antes de leres esta parte da história,
lê o Capítulo 4 aqui.

24 de fevereiro de 2017

Alice:

Estava furioso no último dia em que escrevi aqui. Não contigo, mas comigo. Sim, apenas comigo. Afinal, que culpa tens tu por teres sido a melhor coisa que me aconteceu? Nenhuma. E também não tens culpa de me teres feito o homem mais feliz do mundo naquela altura. Não tens. A culpa foi minha por me ter permitido ser bastante infeliz antes de ti.

Tu limitaste-te a ser. Foste comigo quem és com qualquer pessoa que se cruze contigo: doce, inteligente, generosa, feliz, profunda, misteriosa. Terias de ter querido ser diferente disto para conseguires sê-lo. Mas isso também teria feito de ti quem não és. E tu és genuína, transparente.

Tu não tens culpa.

Tu apenas partilhaste comigo o que pensas do mundo, assim como apenas me colocaste perguntas que a tua curiosidade te impôs. Tu apenas escrevias a poesia que habita o teu coração — e que não consegues tirar de lá, porque essa poesia és tu. Tu só me contaste os sonhos que tinhas, porque os outros, que não eram teus, terias que inventar — e para quê inventar sonhos que não eram teus, se os teus eram tão bonitos?

A minha fúria, no último dia em que te escrevi aqui, era para comigo.

Porque eu deveria ter sabido apreciar-te: ao longe. Eu deveria ter sabido que há pessoas que nunca serão nossas, por mais que queiramos, por mais que as amemos. Eu deveria ter controlado o meu coração carente, a minha vontade sedenta de saber de ti, o meu desejo desmedido de ser teu. Eu deveria ter-me imposto limites. E deveria ter sabido impô-los, desde o primeiro minuto.

Tu não tens culpa.

Tu apenas me sorriste com esses olhos profundos e doces que tens — e, se são esses os teus, como poderias ter-me sorrido e olhado de outra maneira?

Tu apenas me permitiste deambular pelos teus pensamentos mais profundos e doces — e, se são esses os teus pensamentos e se também falávamos deles, como poderia ter eu deambulado por pensamentos que não fossem profundos, nem doces?

E como poderia o teu cheiro e a tua presença não me ter desarmado, se é esse o único corpo que tu tens?

Tu não tens culpa. Não tens culpa da raiva que senti — e que vou sentindo, de vez em quando, confesso.

A culpa foi minha. Sempre minha.

Porque fui eu que me permiti rever em tudo o que partilhaste comigo e na pessoa maravilhosa que te limitaste a ser. Porque fui eu que baixei o escudo quando deveria tê-lo mantido erguido, sabendo bem que nunca serias minha. Porque fui eu que me deitei, noites e noites sem fim, a sonhar contigo. Fui eu que me permiti desejar-te.

A culpa foi minha. Sempre minha.

Tu só foste quem, comigo ou sem mim, continuarás sempre a ser — e quem te tiver será sempre um sortudo que eu irei invejar para o resto da vida, em segredo.

A minha fúria foi apenas para comigo.

Eu é que fui um tolo — por me ter permitido apaixonar por ti.

E ainda o sou — por me permitir gostar ainda tanto de ti.

Vicente

Próximo capítulo: sexta-feira, dia 23 de junho.
Não percas!
❤️

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.