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Como é que eu deixo de te amar? (Capítulo 4)

Como é que eu deixo de te amar? (Capítulo 4)

Antes de leres esta parte da história,
lê o Capítulo 3 aqui.

16 de fevereiro de 2017

Vicente:

Este é o 68º dia em que te escrevo. Aqui, onde ninguém nos lê, faz, hoje, um ano que comecei este diário. Um diário para desabafar tudo o que sinto. Um diário onde tenho chorado, onde tenho mordido as palavras, onde elas se soltam, onde as emoções me turvam os olhos e onde o meu amor, por ti, ainda me dói por dentro. Um diário onde sou a Alice apaixonada, a Alice que não esqueceu, a Alice que ainda revive tudo o que aconteceu, a Alice que ainda sofre com a perda. Um diário só meu.

Este é o 68º dia em que venho, aqui, relembrar-te. Em que venho aqui chorar-te. Em que sinto vontade de te abraçar, de largar tudo, de correr para ti. Em que sinto vontade de apagar o passado, de esquecer o tempo que nos separa, de me sentar contigo a ver as estrelas no céu. O 68º dia em que, em silêncio, me escondo do mundo à minha volta e, sem que o mundo saiba, escrevo cada palavra só para te sentir mais perto. E, apesar de te sentir mais perto, apesar de te sentir presente, apesar de te ver quase à minha frente, este é o 68º dia em que a distância que nos separa me ferve no peito; em que não poder olhar-te me entristece o olhar; em que não poder perguntar-te «como foi o teu dia?» me faz querer ficar quieta, embrulhada sobre o meu próprio corpo, com a dor, com esta vontade funda de chorar. E de chorar…

Já sei, Vicente.

Já sei que me esqueceste. Já sei que isto é vão. Já sei que não te deves sequer relembrar de mim, de quem fui, do que signifiquei para ti, dos dias que passámos juntos, das palavras que trocámos, do amor que viveu nos olhares que trocámos…

Esses olhares, Vicente, em que senti que podia morrer nos teus braços, a olhar para ti, a viver-te, a sentir o teu olhar doce no meu, que morreria feliz. Esses olhares, Vicente, que me fizeram renascer. E que me deram uma vida de que não me consigo esquecer — porque me fizeram sentir viva por dentro, capaz de enfrentar um mundo, capaz de saltar por entre as casas e as cidades, capaz de voar sobre as árvores e de dançar sobre as nuvens. A vida, essa, que ainda habita em mim, na saudade que sinto de ti, na falta que me fazes, na dor que me aperta e no abraço que te quero tanto dar, mas que não posso.

Já sei, Vicente.

Já sei que me esqueceste. Que esqueceste tudo. Porque o tempo passa para todos — para ele, para ti, para mim, para todos! E o tempo apaga quem não está, quem não precisa de estar, quem não queremos perto — e eu sei que, hoje, anos depois, tu já não me queres perto. Porque o silêncio, este silêncio que chora nos meus olhos, este silêncio que me corrói por dentro, este silêncio que me magoa a vida sem ti, diz-me que não sentes. Diz-me que não queres. Diz-me que não pensas sequer no que aconteceu — em mim. Que acabou. Que ficou ali, preso no tempo, atrás, onde é apenas passado.

Já sei, Vicente, que estes 68 dias a chorar-te foram dias inúteis da minha vida. Que devia, como qualquer pessoa, seguir a minha vida e ser feliz. Que devia aprender a calar a dor e, de uma vez por todas, procurar a alegria nas coisas que ainda tenho, nas pessoas que ainda posso vir a conhecer, nos imensos pequenos prazeres que posso sentir nas coisas simples.

Já sei, Vicente, que hoje faz um ano que só existe silêncio entre nós. Que a tua vida já não precisa da minha. Que estou sozinha no amor que ainda sinto por ti. Completamente sozinha.

Mas diz-me: Como é que eu apago de mim o que senti? Como é que eu apago de mim o amor que ainda sinto por ti?

Diz-me, Vicente: Como é que eu deixo de te amar?

68 dias a escrever-te.

68 dias a chorar-te.

Um ano sem saber de ti.

Alice

Lê o Capítulo 5 desta história,
aqui. ❤️


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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