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Porque amanhã tudo pode ser diferente

Porque amanhã tudo pode ser diferente

Fotografia © KathrinPie

Começo a escrever este texto com a voz embargada. Felizmente, as palavras escritas não precisam de voz. O meu queixo tem estado em luta permanente consigo próprio, a tentar que eu resista àquilo que sinto vontade de fazer: chorar. Chorar compulsivamente. Baixar a cara, baixar os braços e deixar-me ficar — só a chorar.

Em vez disso, opto por abrir esta janela vazia do computador e por chorar de outra forma: nas palavras que quero escrever e partilhar convosco. E, assim, talvez possamos chorar juntos — é menos solitário, pelo menos.

Porque vos venho falar da vida… e da morte.

É que há dias em que também somos forçados a pensar nelas.

Ontem, uma leitora do apeteces-me identificou-me numa publicação sua: era a fotografia do meu livro — que, por ironia, diz na capa «porque amanhã tudo pode ser diferente». Tinha acabado de o receber por correio — presumi. Agradecia ao marido, pela oferta, e brincava, dizendo que talvez não resistisse a lê-lo todo ao almoço, durante o dia de hoje. Fiquei feliz. Fico sempre feliz. Não há outro propósito que não esse, ao ter esta página: o de chegar às pessoas, o de lhes fazer companhia, o de sentir que as minhas palavras fazem sentido e são bem recebidas por alguns.

E foi por isso que, hoje, por curiosidade, me lembrei de ir espreitar o seu mural. Curiosa, queria perguntar-lhe se já tinha começado a ler o livro. Mas não fui capaz de lhe perguntar nada. É que, através da sua mais recente publicação, fiquei a saber o que não esperava de todo: que o marido tinha falecido. De um dia para o outro.

Não a conheço além daquilo que conheço da maioria de vocês: os vossos comentários pontuais; as vossas fotografias de perfil e as palavras que, por vezes, recebo de forma privada, muito pontualmente, quando algum texto meu obriga a uma partilha mais reservada. Mas fiquei petrificada em frente ao computador. Pela dor que senti. Pela impotência a que a morte nos obriga. Pela solidariedade que acredito que todos devamos sentir num momento destes. E pela projeção que fazemos de nós, e dos que são parte da nossa vida, quando nos deparamos com a morte de alguém, que, mesmo não sendo íntimo nosso, faz parte daquele círculo de pessoas que sabemos que estão ali, que existem, que se cruzam connosco.

Não sei como, quando dei por mim, estava com várias páginas abertas em simultâneo — de crianças com cancro, de pessoas que já cá não estão, de saudades insuportáveis sentidas pelos que cá ficam. E a minha angústia tornou-se ainda maior. Porque eu raramente falo na morte. Mas, quando me apercebo dela, quando sou empurrada para a sua realidade, é como se morresse por antecipação — eu e todos aqueles que me rodeiam, que imagino perder de um segundo para o outro; eu e todos os sonhos que ainda tenho, todos os projetos que julgo ter ainda tempo para concretizar, e que sinto serem profundamente irrelevantes quando penso na morte.

Mas não é sobre mim e sobre a minha dor que eu quero falar. Até porque a minha dor é por antecipação. Há dores reais, profundas e incapacitantes, que merecem todo o meu respeito e silêncio. E eu não quero este papel de falar das dores que não sinto. Não hoje. Mas quero falar das dores que temos sentido. Muitos de nós: porque eu não me considero diferente dos outros. E é por isso que, inevitavelmente, falo de mim.

Quantos de nós estão felizes na vida que têm?

Quantos de nós adiam as emoções, adiam os projetos, adiam os sonhos, adiam o abraço, adiam a família, adiam a cumplicidade?

Quantos de nós acreditam que ainda têm tempo para fazer amanhã o que andam a adiar nos últimos anos?

Quantos de nós se concentram no trabalho com o argumento de que «é preciso pagar as contas», mesmo sabendo que o motivo para o fazerem já não é só esse?

Quantos de nós se focam em tarefas, atividades e preocupações quase mecânicas e rotineiras, para evitarem pensar naquilo que realmente os incomoda? E naquilo que realmente querem, mas que não têm a ousadia de proferir em voz alta?

Quantos de nós sentem falta de algo que os faça sentir mais vivos?

Quantos de nós calam as emoções e os sentimentos, com medo de arriscar, e ficam meses, ou anos, infelizes na vida que levam?

Quantos de nós se apercebem de que a vida que levam, esta, onde estão infelizes, pode ser — porque a morte acontece quando menos se espera — o resto das suas vidas?

Quantos de nós têm consciência de que mais vivos do que isto não é possível, porque a vida acontece agora e não sabemos quando termina?

Quantos de nós?

Lembro-me de há uns anos a minha mãe me ter contado a história de um escritor algarvio, que, por coincidência, lançou um livro sobre a morte uns meses antes de falecer. Desconheço se estava doente — pelo que sei, não estava — e, por isso, cada vez que penso nisso, o arrepio é óbvio: de alguma forma, porque terá ele sentido necessidade de falar da morte? Terá sentido necessidade de se despedir da vida? Alguns chamar-lhe-ão premonição, coisas de outras vidas. Eu, que tenho a mania de contra-balançar a minha emotividade com quilos de lógica, chamar-lhe-ei acaso. Mas é um acaso que me petrifica. E a vocês não?

No último ano, apesar de me considerar uma pessoa positiva, até um pouco inconsciente das coisas más da vida — tenho a mania de que não falar sobre elas faz com que elas desapareçam ou nunca aconteçam —, tenho-me perguntado tudo o que vos perguntei acima.

Talvez porque, no ano passado, pela mesma semana em que lançava o meu livro, morria-me o meu avô materno. Talvez porque, apesar de ter feito 37 anos apenas há umas semanas, estou há dois a arredondar a minha idade, a dizer que tenho já 40. Talvez porque não tenho filhos e me aterroriza a ideia de viver os últimos anos da minha vida numa profunda solidão — e de gastar anos da minha vida à procura de um amor que, afinal, só se sente por um filho. Ou talvez porque tenho um problema no coração — que não é grave — que me faz sentir mais vulnerável. Talvez porque, apesar de escrever muito e com facilidade, nunca consigo ter lucidez suficiente para organizar todas as emoções que me assaltam, e que me atabalhoam a vida, e contar as histórias que tanto queria conseguir eternizar no papel — para as deixar a quem cá ficar, depois de mim. Talvez porque vivo longe da família, numa cidade enorme, que é o centro do mundo para tanta gente, e tenho medo que estes sejam os últimos anos da minha vida — longe da minha família, longe dos meus.

E sei que, por mais angustiante que possa ser gerir todos estes «talvez» em mim, não estou sozinha. Algures, desse lado, acredito que haja quem sinta como eu. E que lute, diariamente, contra os mesmos «talvez» — e outros bem maiores — do que eu.

E é por isso que falo de mim, hoje, aqui, quando aqui vim para falar de nós. Porque somos feitos do mesmo. Porque queremos todos, e tanto, viver. Porque temos todos sede de ser felizes. Porque todos choramos com a dor. Porque nos congela a todos a ideia de recebermos aquele telefonema, a anunciar aquela morte. Porque todos sentimos a impotência a que esta nos obriga. E a saudade que ela nos deixa: dos que partiram, mas também de nós — de quem ainda queremos ser, do que ainda queremos fazer, do que ainda queremos sentir.

Quantos de nós estão felizes na vida que têm?

Quantos de nós adiam a felicidade com a certeza de que ainda terão tempo de sobra para lutar por ela?

E se não tiverem?

Nos últimos tempos, desde que voltei a escrever aqui com mais assiduidade, têm sido imensas as mensagens que recebo vossas — de mulheres e de homens —, a confidenciarem-me que vivem uma vida que já não querem, ao lado de quem já não amam, mas que não têm coragem para mudar. Porque a mudança envolve sempre um risco.

E eu pergunto:

Quantos de nós adiam o amor com medo de arriscar?

Quantos de nós perdem a oportunidade de viver uma história inesquecível, que poderá nunca mais ser repetível, se não agirem já?

Quantos de nós se recusam a ver que o verdadeiro risco não está em mudar, mas antes em chegar ao fim da vida sem se ter lutado pelo que tanto se queria?

E insisto:

Quantos de nós acham que ainda há tempo?


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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