Hoje, odeio-te por tudo o que me fizeste sentir (Capítulo 3)

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Antes de leres esta parte da história,
lê o Capítulo 2 aqui.

13 de fevereiro de 2017

Alice:

Há dias em que te amo tanto, que tenho uma vontade doida de te abraçar com força, só para sentir o teu corpo rente ao meu, e deixar-te ficar nos meus braços até que a manhã rompa, cheia de luz.

Há dias em que te amo tanto, que só quero ficar a olhar para ti: a observar-te os cabelos longos, caídos sobre as tuas costas magras; a apaixonar-me pelo teu olhar redondo, feito de azul, onde era capaz de mergulhar; a desejar o beijo desses teus lábios carnudos, rosados, despidos, que sempre termina com um sorriso doce.

Há dias em que te amo tanto, que me deito contigo ao meu lado — mesmo já tu não estando aqui — e, quando já está tudo escuro, procuro a tua mão, debaixo dos lençóis, para poder adormecer com os teus dedos magros entrelaçados nos meus.

Porque, sim, há dias em que te amo, Alice. Tanto.

E depois?

Depois, há dias em que sinto o oposto.

Há dias em que te odeio, Alice!

Há dias em que só sinto revolta, agonia e raiva.

Há dias em que me revolta o que ainda sinto. E em que me revolto contra mim, contra ti.

Nesses dias, Alice, sinto vontade de te gritar, de te pedir que vás embora e que desapareças para sempre da minha vida. Nesses dias, as emoções toldam-me o pensamento e só consigo pensar que no quanto a minha vida, hoje, poderia ser tão diferente se nunca te tivesse conhecido — e que poderia ser tão melhor.

Há dias em que tenho vontade de te obrigar a jurar que nunca mais me procurarás, que nunca mais habitarás qualquer pensamento meu, que nunca mais permanecerás no meu coração.

Há dias, como hoje, Alice, em que te odeio! Por teres desaparecido, assim, da minha vida. Por não teres sequer olhado para trás, mesmo quando sabias que eu estaria lá atrás à espera que recuasses.

Há dias, como hoje, em que te odeio por este silêncio a que me obrigas, todos os dias, e que me faz ter de lidar com o que sinto desta forma tão silenciosa quanto dolorosa.

Há dias, como hoje, em que te quero gritar que não voltarei a verter uma única lágrima por ti. Nunca mais! Que nunca mais vou ouvir as músicas que me relembram de ti. Nunca mais! Que nunca mais vou sentir saudades. E que nunca mais vou permitir que haja dias em que, em vez de te odiar, como o de hoje, te ame. Tanto. E ainda.

Hoje, Alice, não me apetece estar aqui com palavras doces. Porque só sinto raiva pelo que sinto, raiva pelo que me fizeste sentir, raiva pelo que me deixaste: silêncio, ausência, vazio.

Hoje, Alice, tenho vontade de me erguer e levantar a cabeça, de jurar a pés juntos que ainda vou ser muito feliz depois de ti. Ouviste bem?

Hoje, Alice, se não estivesse aqui, a gastar palavras vãs neste ecrã em branco, tenho a certeza de que estaria ali, algures, a derramar o meu corpo noutro corpo só para te esquecer — só para te provar que ainda sou homem, que ainda estou vivo, que ainda sou capaz de me entregar a alguém.

Hoje, Alice, não sinto o amor que tenho por ti. Está anestesiado. Tenho lágrimas nos olhos que não conseguem chorar. Dói-me o peito, sem que a dor me doa — mas eu sei que ela está cá. E engulo em seco e prometo-me que não verterei uma única lágrima nas próximas… horas. (Ou talvez dias, se me aguentar.)

Hoje, Alice, não te amo. (Pelo menos, não te amo tanto.)

E não vale a pena dizeres-me — que eu sei que é isso que estás a pensar — que, amanhã, quando esta anestesia cheia de raiva me tiver passado, voltarei a desejar mergulhar o meu olhar nos teus olhos redondos de azul, nos teus lábios carnudos e rosados, no teu sorriso brando e tímido. Escusas de me dizer também que, amanhã ou depois, irei procurar a tua mão debaixo dos lençóis, às escuras, para adormecer contigo em mim.

Escusas, porque eu não vou querer ouvir-te!

Porque, hoje, eu não te amo. (Pelo menos, não tanto.)

Hoje, eu odeio-te por tudo o que me fizeste sentir de bom por ti, por tudo o que de maravilhoso me deste, por todas estas saudades com que me obrigas a viver.

Hoje, odeio-te!

Hoje, odeio-te, meu amor.

Vicente

Lê o Capítulo 4 desta história,
aqui. ❤️

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.