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Porque nunca deixei de te amar (Capítulo 2)

Porque nunca deixei de te amar (Capítulo 2)

Antes de leres esta parte da história,
lê o Capítulo 1 aqui.

28 de janeiro de 2017

Alice:

Depois de ter escrito a primeira entrada neste pseudo diário sobre ti, percebi que este refúgio é perfeito para exorcizar o que sinto e tenho guardado só para mim, ao longo destes anos. Diz-se que escrever faz bem, que alivia a alma, e nós sabemos bem que é verdade. Ambos usamos as palavras para expressar o que de melhor sentimos. Mas nem sempre queremos fazê-lo. É que, às vezes, o que sentimos dói. E pensar nele escarafuncha na ferida enorme que temos dentro do peito. Faz-nos querer chorar, morder as palavras, controlar a raiva por ainda sentirmos tudo. Tudo o que talvez já não devêssemos sentir.

Mas, aqui, nestas palavras, sinto-me seguro. Porque sei que não as mostrarei a ninguém. Tu nunca as irás ler. E ainda bem. Talvez não entendesses. Talvez me achasses descabido. Talvez eu próprio percebesse o quão inútil é sentir isto, perante a tua reação ao lê-las. Encolherias os ombros? Abanarias a cabeça, em ar de reprovação? Dir-me-ias para ter juízo e seguir com a minha vida? Ou sentirias o coração um pouco mais quente, mais cheio, apertado, por sentires também um pouco do que eu sinto? Sentirias raiva por cada uma delas? Ou vontade de um abraço? Nunca saberei…

É sábado. Estou por aqui, na sala, a beber o meu café da manhã. É janeiro. Está a chover. E, porque a chuva me faz sempre ficar nostálgico, não resisti a ir buscar as músicas que ouvia naquela altura. Que ouvia enquanto pensava em ti e enquanto nos imaginava, um dia, juntos. Sentia sempre que qualquer uma delas tinha sido escrita por mim, para ti. Tal como agora. É por isso que raramente as oiço. Evito-as sempre que posso, porque sei que elas te trazem a mim. E que o fazem de uma forma tão real, tão intensa, que chego mesmo a ouvir-te, a ver-te à minha frente. Que me fazem querer tocar-te, abraçar-te.

E amar-te. Amar-te como naquela altura.

E não é curioso?

O tempo passa e nós aprendemos a guardar o que sentimos dentro de nós. Guardamo-lo como se guarda um caderno na gaveta, uns sapatos numa sapateira ou as fotografias da família numa caixa de papelão no cimo do armário. Guardamos todas estas coisas para não termos de as ver ali, à frente dos nossos olhos, todos os dias. Porque atrapalham a estética da casa. Ou porque não precisamos delas frequentemente.

Da mesma forma, há também sentimentos de que não precisamos todos os dias. Há sentimentos que nos atrapalham. Não a estética da casa, mas a vida. Distraem-nos de viver o nosso dia a dia, ou aquilo que nos resta dele, aquilo que ainda é real. Impedem-nos de nos focarmos no essencial. Magoam-nos e incomodam-nos. Agridem-nos. Fazem-nos ter vontade de desistir de tudo. E é por isso que os guardamos. Guardamo-los, bem fechados, cá dentro. Naquela zona que parece estar meio refundida. Naquela zona onde não fazem tanta mossa. Naquela zona que nos permite respirar melhor, levantar de manhã e, apesar de tudo, apreciar o sol, apreciar a companhia de quem ainda temos connosco ou até mesmo o facto de estarmos sós — sem mergulharmos numa nostalgia atroz.

Mas guardar estes sentimentos não é a mesma coisa que esquecê-los. Na verdade, nada tem a ver com deixar de os sentir. Pelo contrário. Às vezes, é apenas uma defesa, uma inevitabilidade, uma tentativa de sobrevivência, quando de nada adianta termo-los bem presentes em nós; quando senti-los, dessa forma tão real, nos destrói. Aos poucos.

Depois, quando menos esperamos, ouvimos uma música, ouvimos uma frase, lembramo-nos de um detalhe… e é como se houvesse um terramoto, em nós, que nos abre as gavetas todas da casa, que nos manda todas as caixas ao chão. E somos forçados a olhar, de novo, para tudo o que guardámos cuidadosamente lá dentro.

E ficamos sem reação.

O tempo para, congela. E tudo nos ferve, de novo. O coração salta-nos do peito. Não conseguimos dar um só passo. O corpo fica petrificado no silêncio, connosco a olhar para todas as caixas e gavetas. Tudo nos dói, corrói e asfixia. Porque percebemos que apenas guardámos o que quisemos esconder da vista — porque «longe da vista, longe do coração.» Mas que basta um acaso, alheio à nossa vontade, como um simples terramoto, para voltarmos a sentir tudo. Para parecer que foi ontem.

Para voltarmos a amar.

Porque, na verdade, nunca deixámos de amar…

E é isso que me acontece sempre que oiço estas músicas, as nossas músicas, Alice, e é por isso que sempre as evito. Porque volto a sentir-te comigo, em mim. Volto a sonhar contigo. Volto a querer-te e a precisar de ti.

Sim, volto a amar-te… Porque nunca deixei de te amar.

Vicente

Lê o Capítulo 3 desta história,
aqui. ❤️


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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