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Nem sempre nos chega aquilo que somos

Nem sempre nos chega aquilo que somos

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O relógio do computador indica que é quase uma da tarde. Já o meu cérebro, esse, acredita que são cinco da madrugada. Andei às voltas na cama. É um problema meu recorrente, silencioso — enquanto o mundo dorme, eu conto sozinha os minutos que faltam para adormecer. Acordei com a sensação de ver o mundo por um funil. Tudo preto à minha volta. A cabeça a latejar. A primeira coisa que fiz foi resmungar, entre dentes, pela noite mal dormida. Logo depois, agarrei no computador para escrever um artigo para um cliente nos Estados Unidos.

Mas não é de trabalho que quero aqui falar.

A meio do artigo, comentei com uma amiga que eu não seria a pessoa mais indicada para escrever artigos em inglês para um cliente. Sim, vivo em Londres, oiço inglês, escrevo inglês, comunico com clientes em inglês. Ousada, até tenho um blog em inglês — que, confesso, por vezes, me dá vontade de me chicotear a mim própria: é que, apesar dos tropeções que dou a escrever, nem isso me coíbe de facilmente chegar às 2000 palavras num artigo. Nisto, não tardou a resposta do outro lado: «Lá estás tu a desvalorizar as tuas capacidades.» E isto deixou-me a pensar.

Porque é que nem sempre aquilo que somos nos chega a nós, se chega aos outros?

Se tivermos tido a sorte de crescer rodeados de outras crianças — como eu, que cresci rodeada de primos e de brincadeiras de rua com vizinhos —, foi desde cedo que nos iniciámos nesta aventura de nos compararmos ciclicamente com os outros. Entre os jogos à barra, onde eventualmente até partimos algum dente da frente na testa do adversário, e os jogos da macaca, dos polícias e ladrões, e do peixinho, queríamos ser o mais inteligente a jogar e o mais rápido a correr. Não por nos querermos sentir superiores, mas por não nos querermos sentir diferentes. Para contra-balançar, essa necessidade de não nos sentirmos diferentes levava-nos, tantas vezes, a desejar ser melhores. Os nossos pais, como pais envaidecidos e empenhados em fazer dos filhos uns adultos felizes e seguros de si, fizeram-nos crescer a ouvir palavras que nos faziam acreditar que éramos especiais — «o menino mais lindo», «a filha mais inteligente», «é claro que vais ganhar». E nós, miúdos e miúdas inseguras, acreditámos. Só faltava que os outros acreditassem também.

Depois, a vida real acontece. Crescemos. Tornamo-nos adultos. E, no meio dos outros adultos, do mercado de trabalho, das relações mais ou menos difíceis que vamos tendo pela vida, percebemos que não somos tão especiais como acreditámos. Na verdade, somos iguaizinhos aos outros. E até facilmente substituíveis. Com as mesmas capacidades. Com os mesmos sonhos. Com a mesma vontade de ir mais longe e de vencer. Com a mesma sede de viver e a mesma urgência em ser feliz. Todos choramos — ainda que uns o assumam de forma mais natural do que outros. Todos rimos com gosto, quando estamos no lugar certo com a pessoa mais certa de todas — a que nos anima, a que nos devolve o gosto pela vida, a que suaviza em nós os percalços da vida. Todos contamos os dias e todos temos medo de chegar ao momento da nossa morte com a certeza de que podíamos ter aproveitado melhor o tempo — e aqueles — que aqui tivemos.

Não somos diferentes. Em nada. Não somos especiais. Em nada. A única coisa que me diferencia de ti é a coisa mais óbvia do mundo: eu sou eu e tu és tu. Irei gostar sempre mais de mim do que de ti, que nem conheço, porque é esse o instinto de sobrevivência: o de gostar sempre de mim, por mais erros que cometa, por mais coisas menos boas que me aconteçam, ou me façam sentir. Mas nenhum de nós é melhor do que o outro em termos absolutos. Nem pior. Somos apenas individuais, únicos, separáveis. E, se há quem veja a vida assim, há também os que acreditam que serão sempre melhor do que os outros — aqueles que se acham a última bolacha do pacote.

Por defeito ou feitio, sempre me achei igual aos outros nas coisas mais importantes da vida: na igualdade de direitos e na igualdade de sonhos. Noutras, também houve vezes em que senti as consequências de ver os outros à minha semelhança — é que, por vezes, há mesmo quem, na arrogância de se achar muito melhor do que nós, acabe sendo muito pior. Também há ocasiões em que sou eu que me sinto menos do que os outros. Porque errei. Porque desiludi. Porque não sei tudo. Porque posso ser bonita para alguns, mas há tantas mulheres mais bonitas do que eu. Porque, apesar de dizer parvoíces que fazem rir, certamente não sou tão divertida como talvez tu. Ou, neste caso, porque não escrevo tão bem inglês, apesar de ter sido contratada por um inglês que, previamente, leu textos meus escritos em inglês.

Sim, nem sempre me chega aquilo que sou. E não o escondo — da mesma forma que não evito esconder o choro, seja ele de emoção ou de tristeza. Porque é, precisamente, por acreditar que todos somos iguais que acredito, também, que a minha fraqueza não me torna menor do que ninguém. Todos nós temos momentos em que sentimos que o que somos não chega. E alturas em que duvidamos das nossas capacidades. E instantes em que tememos a rejeição. Todos nós, por vezes, nos sentimos infelizes pelo que não conseguimos ser, ter e fazer, quando nos deveríamos sentir felizes pelo que somos, temos e fazemos.

E isso apenas faz de nós humanos. É que, no fundo, sabemos que o único motivo pelo qual nem sempre nos chega aquilo que somos é o facto de também sabermos que este mundo é feito de imensas pessoas maravilhosas, bonitas, sensíveis, capazes — que, tal como eu, tal como tu, são igualmente especiais.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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