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Ninguém disse que seria fácil

Ninguém disse que seria fácil

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Hoje, apetece-me falar de ti, que aí estás do outro lado deste écran. Consigo ver-te os óculos e os olhos semicerrados enquanto lês estas palavras. E está escuro. Não acendes as luzes porquê?

Já te conheço bem. Acho que me sinto no direito de falar de ti. Sei que és boa pessoa, empenhada, dedicada, que te esforças, mas agora vamos ter uma conversa séria. E com testemunhas, que é para ser ainda mais assertiva e para não poderes fingir que ela não existiu.

És freelancer, designer, ilustradora, pseudo escritora, blogger. Geres sozinha uma plataforma de escrita criativa com mais de 50 autores. Gostas de fotografar, de escrever e de comunicar. Desde que te conheço que assisto a uma mulher que nunca desiste de aprender, de tentar, de arriscar. Dedicas-te com tudo o que és, seja a pessoas, a projetos ou a ideias. És intensa no sentir, genuína no discurso e, em tantas situações destes teus 36 anos, já me provaste que és mais forte e resistente do que qualquer um poderia adivinhar. Queres sempre dar o máximo e o melhor de ti em tudo o que fazes. E o máximo que dás de ti nunca te chega. Porque és mais exigente contigo do que com os outros. Tens mil e uma ideias na cabeça. Queres colocar em pratica quase todas, mas tentas começar pelas melhores. Quando agarras num projeto ou tens um cliente novo, o entusiasmo é grande. Estás no teu habitat natural. Se antes já trabalhavas horas a fio e te esquecias de comer, então agora, com um prazo apertado, deixas de existir para o mundo. Acordas direta para o computador. Tomas vários cafés por dia. Quase nem comes durante dois dias porque a ansiedade dos prazos apertados faz-te levar os dias com uma ligeira agonia. É fim de semana? Não interessa. O trabalho tem de ser entregue até domingo à noite. Levas o fim de semana em casa, enquanto todos vão à rua passear. Ouves as portas a abrir e a fechar, dizes olá e adeus várias vezes por dia, mas não levantas os olhos do écran. São 4 da manhã quando envias o último mail de trabalho e às 8:30 estás a enviar um outro ao mesmo cliente só para confirmar que chegou tudo bem. É claro que chegou tudo bem, mas a preocupação não te podia largar, pois não? No final, todos te elogiam pela tua dedicação, profissionalismo e esforço. Mesmo assim, achas sempre que podias ter feito melhor.

Nos fins de semana em que não tens projetos, sais e passeias. Não porque te consigas desligar do teu trabalho, não porque consigas fazer uma pausa na tua sucessão de pensamentos, não porque não gostasses de estar a desenhar ou a tratar da imagem de um produto, mas porque sabes que há mais vida além disso. Esforças-te para não te esquecer disso todos os dias da semana. E, além disso, passaste tantos dias fechada em casa que até as pernas te doem. Não, não é de tanto exercício físico. É por estares tanto tempo parada. É má circulação. Lá no fundo, bem no fundo, tens medo de morrer. Não o confessas a ninguém, porque tu não és pessoa para falar da morte à mesa de um café, mas eu sei que sim. Sabes que o teu sedentarismo te vai atirar mais cedo para ela. E para que serve isto tudo, esta ansiedade em que andas, esta luta toda, se é para morrer já amanhã ou depois? Ao fim de semana, vais passear. Nem que fosses dar voltas consecutivas ao quarteirão, que era eu que te obrigava. Mais de cinco dias seguidos fechada em casa já é demais, não te parece?

Sofres de um mal que dizem ser normal nos criativos. As tuas ideias estão sempre a turbinar. Não te conheço descontraída, desde há alguns anos para cá. Mesmo quando estás a ver um filme, ou num restaurante, não descansas. Mentalmente. O ciclo é vicioso porque precisas de pensar nas milhares de coisas que ainda podes fazer para te sentires útil e capaz. Às vezes, essas ideias são mesmo fantásticas. E acertas, corre tudo bem. Mas nem sempre o são. Tentas, mas falhas. Tens vontade de gritar, de espernear, de soquear paredes, de mandar tudo à merda, de bater com os pés no chão, como fazem as crianças, e de desistir. Sim, podes estar deitadinha no sofá a ver a tua série preferida com o ar mais angelical do mundo, mas é nisto que pensas, que eu sei. Não é por acaso que, quando te perguntam o que é que acabou de acontecer na história desse episódio, tu nunca sabes responder. Só metade de ti está lá. No entanto, forças-te a ficar imóvel e tentas reproduzir uma teoria qualquer de meditação que leste algures, que faz com que tudo pareça simples e belo. Nunca surte efeito em ti. Mas consegues, pelo menos, que ninguém dê pela mulher histérica de cabelos em pé que vive, tantas vezes, em ti. Já não é mau. Tens o dom de conseguir parecer sempre calma. Além disso, no fundo, sabes que amanhã é provável que a simples luminosidade do sol te ajude a suportar essa frustração imensa que sentes hoje.

Nos dias em que trabalhas num projeto novo, a adrenalina criativa é tanta que ficas horas acordada. Bem que te deitas cedo, mas não há sono que te adormeça. Parece que tens um mundo inteiro a girar dentro de ti, numa espiral psicadélica de amarelos fluorescentes e de laranjas, de vermelhos e de pretos. Já não te surpreendem as insónias. És assim. Sempre foste. É sempre igual. Nos dias em que não trabalhas num projeto novo, a cabeça deita-se na almofada, o cansaço chega, mas a rave instala-se outra vez na tua cabeça. Parece que estás numa discoteca. A música está demasiado alta e toda a gente salta e grita e bebe à tua volta, contigo parada no meio da multidão com o coração a bater. Olhas para todos os lados e tentas captar todas as imagens ao mesmo tempo, mas essa vontade de conseguir absorver tudo faz-te sentir ansiedade e o teu estômago, por vezes, parece subir-te até à boca. Não fumaste nada, mas, às vezes, até parece que sim.

Depois de horas às voltas, estás finalmente cansada o suficiente para acreditares que vais finalmente adormecer. Bem precisas, devo dizer. As tuas olheiras já se veem ao longe, mas, como pouco sais de casa, porque é lá que trabalhas, já nem as tentas disfarçar, não é? Ajeitas a almofada debaixo do teu rosto e o corpo na posição certa para adormecer. Quase sempre de lado. No entanto, em silêncio, de olhos fechados, à espera, acontece. Acontece aquilo podia ter acontecido há três horas. Surge-te uma ideia para um texto! Com tantos projetos em mãos, já não públicas nada no teu blog há um mês. É assim que és escritora? As primeiras frases começam a fluir no teu pensamento. Acho até que elas se escrevem sozinhas. Fazes um rascunho rápido mental dos quatro ou cinco parágrafos e, sem dares por isso, com as luzes amarelas fluorescentes e vermelhas à tua volta, até já sabes que final lhes dar. Um final que não queres esquecer, pois encontrar bons finais é sempre uma tarefa difícil e há que aproveitar quando eles surgem. São 2:58 da manhã quando desistes de adormecer e, embora cansada, esticas o braço no escuro para alcançar o tablet que derramaste em cima do tapete. O branco brilhante do écran ofusca-te. Parece uma tocha de luz que te encandeia. Afastas a cara e franzes os olhos para evitar que te cegue. Respiras fundo.

São 04:20 quando finalmente terminas o esboço do teu texto. Quando o acabas, em vez de te sentires orgulhosa, sentes que, vendo bem agora, a ideia em que ele assenta não justifica a sua publicação. Encolhes os ombros. «Que se lixe», pensas, com «f» grande. E preparas-te para atirar a cabeça para cima das almofadas e esperar que o cérebro se canse de uma vez. E que adormeça não de cansaço, mas de exaustão.

Mas, quando vais finalmente desligar tudo, reparas numa notificação do Facebook no topo do écran. É o comentário de alguém que deu com o teu post de promoção numa plataforma de escrita criativa que, numa das tuas insónias, tiveste a ideia de criar sozinha há quase um ano atrás. Diz que não entende porque é que o serviço tem de ser pago. Acha devias trabalhar de borla, e até tem a ousadia de o escrever com estas palavras. Há quem pense que os criativos nasceram assim e que vivem do ar. Devem também achar que os serviços que utilizas para manter a plataforma no ar são gratuitos. É uma ofensa empresas como a Google, ou a Apple, ou o Mailchimp, ou o WordPress, ou freelancers como tu, que não têm subsídios de férias e que trabalham à hora, quererem e precisarem de ser pagas pelo bom trabalho que fazem. Respiras fundo. E não respondes. É melhor não. É que, afinal, tens mais de 120 mil seguidores e já não podes escrever tudo o que pensas. Guarda para outro dia em que consigas formular uma resposta polida e educada. Hoje não seria o dia.

Já é tarde. Vai dormir. Amanhã, prometo-te que estás quase como nova. Mesmo que não estejas, põe para o lado. Não quiseste ser freelancer? Agora, aguenta. Faz-te mulher. E ergue a cabeça. Continua a dar o melhor de ti, e a acreditar que consegues. Porque, com determinação, quase tudo se consegue. Ninguém disse que isto seria fácil.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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