Seguir em frente

11712

Apeteces-me_365F

As relações humanas são imprevisíveis, complexas, simples, intensas, tranquilas, amigáveis, explosivas, doces, provocadoras, leves, densas, fugazes, duradouras… Enfim, são tantas coisas. Esta vivência que a vida nos permite faz-nos perceber claramente que, no que toca às relações entre as pessoas que se cruzam connosco, há de tudo. E que esse tudo pode vir com uma intensidade tremenda e, de repente, dissipar-se no ar. E restar muito pouco.

Lembro-me de, em pequena, olhar para as relações duradouras que, de repente, quebravam, indo cada um para o seu lado, e de aquilo me angustiar. Angustiava-me o suficiente para ficar a pensar nisso muito tempo. Aliás, se havia coisa que me inquietava era mesmo isto. Esta capacidade para se dizer adeus e seguir em frente.

Num dia, encontramos o amor da nossa vida. Vivemos tudo tão intensamente. Sentimos cada sentimento à flor da nossa pele. Temos esta sensação literal de que acabámos de meter o nosso coração na vida da outra pessoa. Sonhamos em conjunto. Abraçamos com tanta força, que até nos parece explodir o peito dentro do abraço. Partilhamos a cama, a casa de banho, os pratos e usamos a toalha do outro se estiver mais à mão. Partilhamos saliva, pele, gemidos, reentrâncias e língua. Sentimos o peso da culpa quando magoamos o outro e fazemos de tudo para não o voltarmos a magoar, a desiludir, a afastar com as nossas atitudes erradas. Acreditamos, lá bem no fundo, que o amor será capaz de aguentar tudo e que teremos sempre a lucidez necessária para equilibrar os momentos e deles fazer sobressair o que há de melhor entre os dois. Num dia, temos sonhos, projetos, família, vontade e, sobretudo, boa-vontade. Porque há sempre um dia em que sentimos que a nossa vida já não faria sentido sem o outro. E acreditamos nisto. Acreditamos que a nossa vida já não faria mesmo sentido sem o outro.

E no outro dia? No outro dia, acabou. No outro dia, já não queremos mais nada. Aquela pessoa já não é o amor da nossa vida. O que era intenso torna-se morno, quase gélido. Os sonhos passam a fazer sentido apenas se não forem a dois, porque, agora, é hora de se seguir os próprios sonhos — como se o outro fosse sempre a culpa dessa incapacidade de se lutar pelo que se quer. Os abraços tornam-se frios, desaparecem. E, quando os há, passam a ser apenas abraços de amigo. Também já não há culpa que chegue no que toca a magoar o outro. Porque já não há aquela ligação que nos permite sentir na nossa pele o sofrimento do outro. Já não há a empatia. Já não sentimos. Já não amamos. Não precisamos urgentemente do calor da pele, do abraço, das gargalhadas. Aquele olhar já nem nos parece, de todo, bonito — onde estávamos com a cabeça? No meio disto, é óbvio que já não queremos fazer o esforço para equilibrar seja o que for. Porque o retorno já não tem para nós o mesmo significado que antes tinha. Sim, porque já não sentimos. Sim, porque já não amamos. Sim, porque acabou. Tudo. De repente. Definitivamente.

Depois de tudo o que se partilhou, depois de todos os momentos a dois, em família, de todos os funerais e casamentos juntos, de todos os aniversários, de todas as séries preferidas vistas em conjunto, de todas as músicas cantaroladas a fazer o jantar, de todos os finais de dia de trabalho a perguntar ao outro como correu o dia, acaba tudo. Mais. Depois de tantas conversas sobre o quão felizes nos sentimos ou do quanto podemos melhorar para seremos um casal feliz — porque isso é importante —, chega-se ao extremo. Àquele ponto, em alguns casos, em que até se muda de passeio quando o outro vem ali, ao longe, ou se ignora a mensagem que cintila no écran do nosso telemóvel. Há até quem chegue a fingir que aquela pessoa não existe e que nunca existiu. Sim, aquela mesma pessoa que nos fez sentir tantas coisas fantásticas, que partilhou tanto de si connosco, que nos deu um abraço nos piores momentos, que fez amor connosco e que acreditou, tal como nós, que gostaria de nós para sempre. Essa.

Lembro-me de, em pequena, olhar para as relações adultas que acabavam e de isto ser a coisa que mais me petrificava. Esta capacidade humana, que é detida por todos nós, sem exceção, de apagar da nossa vida sentimentos que foram tão importantes e de seguir em frente sem olhar para trás. Esta capacidade de substituirmos os afetos, os momentos, as pessoas. Não o digo de forma destrutiva. Não é uma cobrança. Escrevo na primeira pessoa do plural porque quero que fique claro que não sou melhor, nem diferente dos outros. Que estamos todos nisto. Mas temos, feliz e infelizmente, esta capacidade enormíssima de dividir a nossa vida ao meio, de arquivar as experiências más, mas também as boas, assim como as pessoas que já não nos interessam. Esta capacidade de, hoje, se amar muito alguém e de, amanhã, se olhar com uma indiferença crua e gélida para o que se sentiu. Esta capacidade de viver o amor (e tudo o que seja sentido com a mesma intensidade) várias vezes. E de, em cada vez que se vive uma nova vez, parecer ou agir-se como se fosse «o» sentimento verdadeiro — e os anteriores não foram?

Passaram tantos anos e, por mais que a vida nos leve a aprender a desprender dos outros cada vez com mais ligeireza, esta é uma capacidade que me continua a intrigar.

Haverá sempre quem se dissipe de nós com a mesma velocidade e brusquidão com que veio e com que nos prometeu o mundo. Haverá sempre esta insensibilidade pelo outro, quando pelo outro já não temos o interesse do amor, nem qualquer outro. Haverá sempre, em nós, esta parte desumana de nós — que é, contudo, tão típica do ser humano — que é capaz de tão depressa dar tudo como, de repente, retirar tudo. Porque, se for preciso, o passeio está logo ali ao lado, enquanto se vai de mãos dadas com o grande amor da nossa vida. Ou será o quarto? Não nos recordamos, porque «este, agora, é que é o verdadeiro!»

No meio de tudo isto, sempre senti e continuo a sentir uma verdadeira admiração por quem respeita, com palavras e atitude, quem passou pela sua vida e dela já não faz parte. Não é à toa que um dos provérbios que repito mais vezes é: «Nas costas dos outros, vejo as minhas.» Esta capacidade, que nem todos têm, de dignificar o passado, as escolhas e as pessoas que fizeram parte dele. Esta capacidade lúcida e honrada de, mesmo quando se tem culpas a atribuir ao outro pelo que falhou, se perceber que deste lado não está alguém imaculado, perfeito, inculpável, que fez sempre tudo bem.

A culpa, ainda que oscile com pesos e medidas diferentes entre si, é quase sempre dos dois. A inconsciência disso nunca fará de nós anjos aos olhos de quem for. Na verdade, esta inconsciência, tantas e tantas vezes, só fica mal em nós. Aliás, quase sempre fica muito pior em nós do que no outro. Ou, pelo menos, se do outro lado da conversa estiver alguém que pense e veja a vida como eu.

PARTILHAR
Artigo anteriorDesde que estejas aqui
Próximo artigoA morte rouba-nos tudo
Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.