Mais um dia sem ti

Fotografia © Pixabay

Vejo-te à minha frente, parado, de sorriso nos lábios. Aguardas que me aproxime de ti. E eu vou. Passo a passo, vou até ti. «Estavas à minha espera?», pergunto-te. Respondes-me que sim.

Damos as mãos. Caminhamos devagar, enquanto conversamos. Queres mostrar-me o lugar onde, agora, moras e, em especial, o lago. Porque sabes que eu gosto de lagos, de água, da paisagem que ela nos dá. Sentamo-nos numa pedra grande que dá para os dois, cinzenta, e suspiramos fundo ao mesmo tempo. Os dois. «Tinha saudades tuas», digo-te. «Também eu. Sabe-me bem estar, de novo, contigo», dizes-me. Apertas a minha mão na tua, e com a outra passas suavemente os teus dedos pela minha pele, a sentir-lhe a textura, a suavidade. «Tinha saudades de te tocar», dizes-me, com os olhos marejados, quase a quererem chorar. Aceno com a cabeça, cúmplice. Abraço-te. Rever-te também me dá esta vontade de chorar. «Amo-te», dizes-me. «E eu a ti», murmuro-te. Apertamo-nos um ao outro, com força, e desejamos ficar assim por muito tempo.

Mas o tempo não espera. Está em contagem decrescente. E, de repente, ainda estamos abraçados quando uma força nos puxa um do outro. E nos afasta. Tento abraçar-te outra vez. Desta vez, com mais força para não saíres de mim. Tento, tento, mas as minhas mãos perdem subitamente a força. «O que se está a passar?», pergunto, aflita. Os meus olhos abertos de pânico. Olho-te, e os teus permanecem mudos, também fixos nos meus. «O que se passa?», insisto. Mas não respondes. E as lágrimas começam a surgir, lentamente, nos teus olhos — escorrem pelo teu rosto, derramam-se nas tuas mãos abertas e vazias, impotentes. E eu grito. Grito que não. Um grito que me vem de dentro, que rompe o silêncio, que faz eco. Não, não e não. Não, isto não pode estar a acontecer. Não!

E é então que uma névoa branca surge, vinda da água, e que nos envolve. Sei que estamos talvez a um metro um do outro apenas, mas parece haver quilómetros de distância entre nós. Com os meus braços, tento afastar a névoa da minha frente, da nossa frente. Mas é em vão. Não consigo. Não te vejo. Não tenho braços que cheguem para voltar a ti. E perdi o norte. Não sei mais onde estás, em que direção procurar. E tudo fica escuro, de repente.

Até que acordo, com a luz branca do dia a trespassar as janelas.

E respiro fundo.

Mais um dia sem ti.


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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