A paixão arrebatadora da Alice

Uma história real

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Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Conheci a Alice há uns anos — a Alice que, por razões óbvias, tem outro nome na vida real. Entre tantas mensagens, que habitualmente recebo de quem me lê por aqui, houve um dia em que recebi uma da Alice. Nunca tínhamos falado. Nem sequer era uma das leitoras que, frequentemente, comentava as minhas publicações. Mas, quando se mostrou pela primeira vez, a Alice fê-lo de forma inesquecível.

Confidente, reveladora, abrupta, aquela foi a primeira de muitas mensagens que me enviou. Veio de forma inesperada, como uma avalanche — escrita por quem precisava muito de partilhar algo importante, mas sobre o qual não poderia falar com qualquer amigo ou familiar. Por isso, de alguma forma, o facto de eu ser uma estranha, de não a conhecer, nem ao seu rol de amigos, fê-la sentir-se protegida. Ainda por cima, e pelas suas palavras, a Alice revia-se nos meus textos e, sem nunca termos conversado, era como se sentisse que eu já a conhecia e que, de alguma forma, éramos cumplices.

Casada há quatorze anos, vivia o que outros apelidavam de «casamento feliz». Com uma filha em comum, aquele era o primeiro casamento de ambos. Amigos, cúmplices, davam-se bem. E tudo apontaria para que fossem felizes para sempre, ou não estivesse a Alice, secretamente, muito longe de estar bem.

Sentia-se fora de si. Tinha todas as emoções ao rubro. Não conseguia pensar com lucidez. Queria tudo, mas não se conseguia decidir por nada. Não conseguia dormir. Não conseguia trabalhar. Não sabia o que iria fazer à sua vida. Porque estava apaixonada. Apenas não pelo marido.

Havia sido há pouco mais de um ano que tinha reencontrado um antigo colega da escola. Tantos anos tinham passado desde a última vez que se tinham cruzado. No entanto, naquele dia, assim que se olharam, correram um para o outro. Parecia que tinha sido ontem que tinham dado o primeiro beijo adolescente. E não foi preciso mais nada. Esta sensação de um tempo que pareceu não ter passado bastou para que ambos percebessem o que viria a ser inevitável: queriam mais um do outro.

Nos meses seguintes, sabendo que não o deveriam fazer, falavam diariamente. Primeiro, com mensagens simples de bom dia. Depois, à medida que o tempo foi passando, com confidências cada vez mais íntimas. Durante quase um ano, em segredo, foram-se reencontrando nas palavras que trocavam, nas conversas que tinham, nos sorrisos que esboçavam a ler-se. Alimentaram o desejo, a cumplicidade, a necessidade de estarem ali. Fecharam os olhos à falta de coragem para se afastarem um do outro, do que estavam a sentir. Diziam que o que estavam a sentir não era justo, correto — que, num juízo perfeito, nunca se meteriam numa situação daquelas. Mas, se havia dias em que conseguiam controlar-se, em que ganhavam coragem para ameaçarem o outro de que se iriam afastar de vez, havia outros em que a paixão vencia a razão e não queria saber de mais nada.

Durante meses, ouvi-lhe as palavras de angústia, de impotência, de culpa, de medo, de vergonha. A paixão por outra pessoa cegava-a. Mas a amizade pelo marido, embora não sendo já amor, fazia-a sentir-se responsável por não o magoar, desiludir — e a simples ideia de o magoar remetia-a para um sentimento de culpa de onde não conseguia sair. Por isso, tentava ignorar o que (já não) sentia, ser fiel à relação que tinha e focar-se na sua família. Mas o desespero de gostar de alguém, que não podia ter perto, era angustiante. Recriminava-se: ora porque o marido era bom pai, ora porque o marido não merecia, ora porque o marido ia sofrer por sua culpa. E tudo isto era verdade. Mas não era suficiente para que deixasse de sentir o que sentia, ou para que voltasse a sentir o que já não sentia.

Não era da paixão que a Alice sentia medo — porque essa, quando sentida com aquela intensidade, muito naturalmente funcionaria como gatilho para tantas outras decisões irreversíveis, de coração na boca. O seu grande medo era assumir o seu erro, a sua traição: perante o marido, mas, sobretudo, perante si mesma — porque sempre tinha acreditado que nunca seria o tipo de mulher que trai o marido. O seu grande medo era imaginar que a filha viria a saber que o pai e a mãe não estavam juntos por sua culpa, por se ter permitido gostar de outra pessoa, que não o pai. Era enfrentar a reprovação dos seus próprios pais. Era não saber onde iria morar. Era ganhar pouco. E, como se não bastasse, não ter garantia de estar a deixar tudo pela pessoa certa.

Faz, este mês, um ano que a Alice se separou. A decisão foi sua. Não para viver a inesperada história de amor que clarificou o fim do seu casamento — porque essa não passou de um amor platónico —, mas porque ganhou coragem para optar por uma vida sem remorsos diários, sem pesos na consciência, onde não se sentisse forçada a continuar a mentir aos outros e a si própria.

Hoje, é livre. Nunca poderá apagar o que fez, o que sentiu, mas deixou de se recriminar. Aceitou que não conseguiu decidir sempre o que era mais justo, mais correto — mas tentou. E seguiu em frente — porque, afinal, por vezes, o que custa mais é dar o primeiro passo.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.