Abraço

11111
Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Fecho os olhos. Nada mais existe aqui, além disto: a melodia, o batimento acelerado do meu coração e esta minha memória ainda dolorosa de ti. Fecho os olhos e oiço a música. Estou sozinha. Apenas as luzes semi-apagadas da sala nesta penumbra lenta, que assiste à minha desordem. Esta desordem de ainda pensar em ti.

Fecho os olhos e deixo que a música guie as minhas emoções. Traz acima todas as que eu pensava já contidas. Engulo em seco e fito-as em silêncio. São urgentes, grandes, devastadoras e queimam. Fazem buracos fundos no meu peito, para conseguirem transbordar de mim. E transbordam. Dançam à minha frente, como se tivessem braços e mãos longas, a ondularem fora do meu corpo. Braços e mãos que se contorcem, ao som da música, revolvendo-me o estômago. Sinto-me enjoada no epicentro deste turbilhão.

Fecho os olhos, oiço a música e penso em tudo o que aconteceu. Se me dissessem que ainda estaria, hoje, assim, diria ser mentira. O tempo passa para todos. O tempo acalma a urgência, abafa as emoções, suaviza os sentimentos e desconstrói a dor. O tempo não existe só porque sim. O tempo tem força. O tempo tem autoridade. O tempo estrutura argumentos. O tempo mete tudo à nossa frente e faz-nos olhá-lo com olhos de atenção, com olhos de quem tem muito a perder se não souber deixar de precisar do que não pode ter. O tempo mata a paixão, o amor. O tempo tem de ser mastigado lentamente. O tempo tem de matar a paixão, o amor.

Fecho os olhos, oiço a música e lembro-me de ti. Não há tempo suficiente entre nós. Não há lágrimas suficientes entre nós. Todo o tempo do mundo — e todas as lágrimas que possa chorar por ti — não chegam para que te arranque daqui. Fecho os olhos e sinto-te em mim. Por dentro. E esta é uma sensação que as palavras não sabem descrever. Poderia ter todos os nomes e adjectivos do mundo, mas tem apenas um: o teu. Resvala por dentro do meu corpo, mas, por mais força e revolta que o tempo sinta — por sentir o que não deve —, não sai daqui. Deixa-se ficar. Permanece. Em silêncio. É uma vontade emocionada de chorar que não sabe ter lágrimas. É uma ternura doce que não consegue abraçar, mas que o quer tanto. É um encolher de ombros sem remédio, que tem em cima o peso do mundo. É um choro angustiado que tem de ser mudo. Mas que quer tanto chorar, abraçado a ti. Não há tempo suficiente entre nós, nem lágrimas, porque nenhum tempo e nenhumas lágrimas conseguem ser suficientes para apagar o que aconteceu. Nenhum consegue esquecer. Nenhum consegue dizer, eternamente, adeus.

Fecho os olhos, oiço a música e penso no que ainda sinto por ti. Nenhuma outra palavra conseguiria explicá-lo tão bem, quanto a palavra amor. Nenhuma outra seria tão profunda e tão doce. Nenhuma outra desejaria a essência, tanto quanto o corpo. Nenhuma outra conseguiria vencer o tempo. Nenhuma outra mais fácil, menos decisiva, menos definitiva, mais leve. Nenhuma outra teria a leveza e o peso simultâneos do amor. Só esta, assim, dita assim: enrolada na boca, a dançar sobre a língua, com pezinhos delicados que esvoaçam baixinho, como anjos vestidos de branco, a sonharem e a quererem tudo.

Fecho os olhos, oiço a música e abraço-te. Amo-te além de tudo o que o tempo tenta apagar, mas não consegue. Amo-te além de tudo o que eu tento apagar, mas não consigo. Deixo-me ficar dentro deste abraço que imagino. Este abraço feito de amor. E, por instantes,  por tão fugazes instantes, acredito que, um dia, talvez possa viver nele para sempre.

PARTILHAR
Artigo anteriorE eu choro em ti
Próximo artigoUm (quase) amor como nos filmes
Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.