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Parece que foi ontem

Parece que foi ontem

Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dezembro. Olho a janela e vejo o céu escuro no outro lado. É um final de tarde, mas parece ser de noite. Oiço o som dos carros. Deixo-me levar pelos minutos, pela quase chuva e, sem estar à espera, sou invadida por esta sensação desarmante de parecer que foi ontem. Que foi ontem que tudo aconteceu.

Estava tanto frio naquele inverno. Foi o inverno mais duro dos meus últimos anos. Não pela chuva. Não pelo frio. Não pela nostalgia que os invernos carregam e que quase sempre nos fazem sentir falta de um abraço, de um sorriso, de uma vida absolutamente feliz. Foi o inverno mais duro dos meus últimos anos por causa de ti: por causa do que despertaste em mim; por causa do que me permiti sentir, e do que senti, por ti.

Parece que foi ontem que cruzámos o nosso olhar pela primeira vez. Parece que foi ontem que o inverno chovia de emoção nos meus olhos e que tudo o que sentia era um desejo profundo de te abraçar com força, demoradamente. Parece que foi ontem que nos demos à descoberta do outro com o mesmo deleitamento de quem admira uma paisagem fantástica ou de quem fecha os olhos para apreciar as gotas da chuva a cair.

Parece que foi ontem mesmo sabendo que passou tempo suficiente para que já não restasse nada.

Sei que o tempo não volta atrás. Mesmo que pareça ter sido ontem, a verdade é que já perdi a conta aos dias que passaram entretanto. Mas também sei que o tempo, por mais que se divida em dias e meses e anos, é sentido de um modo sempre tão diferente daquele tempo que lhe damos. E é por isso, precisamente, que, hoje, parece tanto que foi ontem.

Que foi ontem que te conheci. Que foi ontem que te quis parte de mim, em mim. E tanto.

Mas também parece que foi ontem que te chorei. E que o fiz durante demasiado tempo. Parece que foi ontem que tive medo de não suportar a angústia, a perda e até a própria ternura — mesmo sabendo que conseguimos suportar tudo o que tiver de ser. Que não há angústia, nem reviravolta, nem perda, que nos mate.

É, hoje, dezembro, como naquela altura. E, enquanto oiço apenas o som dos carros na rua, olho a janela e vejo o céu já tão escuro do outro lado. Sem estar à espera, volto a esta sensação inesperada de tudo parecer ter acontecido ontem. E, apesar de tudo, entre ontem e hoje, há um peso que parece ser de anos e uma saudade tão funda que parece durar há uma vida inteira.


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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