Eu tenho um dom

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apeteces-me_354cQuando não estamos felizes, devemos dizê-lo. Quando algo não corre bem, também. Quando as nossas expetativas foram quebradas, também. Devemos tentar demonstrar sempre a nossa opinião, a nossa vontade, o nosso descontentamento face a algo — porque é um direito que nos assiste, porque não temos de o guardar para nós, embora devamos ponderar o modo como o dizemos.

Eu também me queixo, às vezes. Também tenho as minhas opiniões. Mas não sou, por natureza, uma pessoa que se anda sempre a queixar. Com facilidade, me adapto. Com facilidade, olho para outras coisas, que não as más, e deixo de pensar no assunto. Não por o esquecer, mas por o relativizar. Prefiro focar-me noutras coisas.

Mas há pessoas que levam este direito de expressão ao extremo. Há pessoas que acreditam que, assim, são cidadãs mais proativas. Que, assim, têm mais personalidade que as outras, que se queixam menos.

Se estão com fome, a cada trinta segundos, ouvimo-las a queixarem-se de que estão com fome. Entram em loop. Não saem de lá até convencerem todos — nós, as pazes de alma — a deixarem de fazer o que estavam a fazer e a partirem rumo a um sítio qualquer para comer.

Quando lá chegamos, já sentados, há um silêncio que nos permite respirar fundo: estão entretidos a olhar para a ementa, com os olhos arregalados, e até se esquecem de falar. A lista é enorme e há tanta coisa boa para se comer. Só que o empregado demora mais de dez minutos a dirigir-se à mesa. E, aí, a concentração já não está na ementa, mas no serviço, que poderia ser mais rápido.

O empregado, então, aproxima-se. Traz as orelhas quentes, mas não se queixa — acredito que já esteja habituado. Assenta o pedido, vai-se embora e demora quinze minutos a regressar com a comida. São quinze minutos suficientes para se ouvir queixas de tudo. Do empregado. Do tempo. Dos miúdos ao lado. Das cadeiras. Do barulho.

Por isso, quando a comida chega, há, então, uma exclamação coletiva de alívio. Achamos nós, as pazes de alma, na nossa ingenuidade, que, finalmente, se vai falar de coisas mundanas, que interessam a todos, e que não estão atoladas em negativismo.

Mas enganamo-nos. É que para um queixoso-mestre há sempre qualquer coisa que pode correr melhor. Há sempre qualquer coisa que não está bem. Ficamos, então, a saber que ele não devia ter comido tanto, que está quase a rebentar, que talvez vá vomitar, que a comida não era assim tão boa, que estava cheia de gordura, que as batatas fritas não eram caseiras, que o café estava queimado, que devia ter comido algo mais saudável e que o serviço já foi melhor. Quando a lista chega ao fim, recomeça: porque um queixoso-mestre nunca se cansa de se ouvir a si próprio.

Sim, quando não estamos felizes, quando algo não corre bem, quando as nossas expetativas foram quebradas, devemos dizê-lo. Devemos ser fiéis a nós próprios naquilo que dizemos — e, se pensamos que algo não está bem, que algo nos falta, que algo não chega, é natural que não façamos afirmações que o contradigam. Afinal de contas, é isso a liberdade de expressão. E nós temos direito à alegria, como à tristeza; à satisfação, como à insatisfação.

Considero-me uma boa ouvinte. Sou atenta. Não me canso de ficar muito tempo a ouvir o outro. E não oiço apenas. Faço perguntas. Aceno com a cabeça. Olho nos olhos, vejo os pormenores, atento aos gestos e absorvo toda uma comunicação, verbal e gestual, que acredito ajudar-me a compreender melhor o outro.

Mas, quando me deparo com pessoas assim, que se queixam de tudo, por tudo e por nada, tenho este dom que me salva destes males cansativos do mundo. Desligo-me. Sem darem por isso, agarro na minha nave espacial e vou daqui até Júpiter. E só regresso quando o tempo estiver melhor.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.