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As coisas más não acontecem só aos outros

As coisas más não acontecem só aos outros

Fotografia / Laura Almeida Azevedo

Fotografia / Laura Almeida Azevedo

Começo esta segunda crónica, desta saga de quinze, sentada no meu carro, à espera. Olho à minha volta. Não vejo ninguém na rua. É segunda-feira. Está sol e o tempo, comparado com o que deixei em Londres, está quente. Quase sabe a primavera.

Uma das coisas de que mais sinto saudades, em Inglaterra, é de conduzir. De sair por aí, de música a tocar, a sentir o calor do sol pela janela, a luz forte do dia e com as ruas inteiras à minha frente. Essa liberdade aparente de ir onde me apetece, de estar sozinha comigo, de apreciar o que me rodeia, de levar o meu tempo. Mas quem me conhece sabe que foram muitos os dias, durante os meus primeiros 30 anos de vida, em que disse que nunca iria conduzir, nunca iria tirar a carta, nunca iria ver nisso uma normalidade do meu quotidiano. Pela boca morre o peixe, como se costuma dizer, e, neste caso, ainda bem.

Este meu medo teve uma razão de ser. Todos nós temos medos de estimação, irracionais, que nos atropelam, que não sabemos explicar, que nos condicionam. Todos, porque eu sou defensora de que todos sentimos as mesmas coisas, apenas por motivos e em contextos diferentes. Eu não sou exceção: e este foi, durante muito tempo, um dos meus grandes medos de estimação.

Tinha, mais ou menos, quinze anos quando a internet estava a começar da forma como a conhecemos hoje. Na altura, não havia facebook, não havia blogs como os que conhecemos agora. Havia meia dúzia de salas de chat e um fascínio tremendo por esta magia imensa de conseguirmos comunicar uns com os outros e conhecer quem está no outro lado do país, ou até no outro lado do mundo, com esta facilidade tremenda de apenas um clique. Eu, como já gostava muito de escrever nessa altura, frequentava um chat habitual e, sobretudo, os fóruns da telepac, onde escrevia textos como num blog. Foi aí, num desses sítios, que conheci esta pessoa.

Ela tinha dezassete anos. Era mais velha do que eu. Não interessa dar-lhe um nome, porque, aqui, o que importa não é a sua identidade, mas a influência que a sua realidade teve na minha. Tinha dezassete anos e escrevia como um adulto: com poesia, com maturidade, com crueza. Vivia, claro, com os pais. Tinha sonhos e muitos deles sabia que nunca mais iria poder realizar. Tinha uma fragilidade singular que a fazia olhar para a vida de uma forma diferente da maioria de nós: a vida tinha-lhe trocado as voltas, alterando-se para sempre, daquela forma irreversível que me petrifica: por causa de um descuido, de uma fração de segundos, caiu numa estação de comboios, foi sugada pelo comboio e ficou sem as duas pernas. Ela, a pessoa, era um ele. Era um miúdo com apenas mais dois anos do que eu e lembro-me, como se fosse hoje, do quanto isto me impressionou.

Estamos habituados a pensar que as coisas menos boas acontecem apenas aos outros – pelo menos, é isso que nos dizemos, tentando afastar de nós a possibilidade assustadora de algo idêntico nos acontecer também. Não queremos pensar nisso. Faz-nos sentir o estômago apertado. É como se um balde de água fria nos fosse derramado, de repente, sem aviso, por cima das nossas cabeças e nos congelasse até aos ossos. Afastamos estes pensamentos, estas realidades, porque não precisamos de passar por elas para sabermos que elas devem doer muito, que devem custar horrores, que nos testariam os limites de formas que nem ousamos tentar perceber se teríamos força para suportar. Mas, quando conhecemos alguém que passou por isto, não podemos fugir. Não podemos evitar o pensamento. Não podemos evitar o assombro, a dor solidária. Não podemos, sobretudo, evitar a consciência de que somos frágeis, demasiado frágeis, e que aquilo que controlamos do nosso futuro é realmente muito pouco — para não ser extremista e dizer que é quase, quase nada.

Sei que o meu medo por conduzir veio daqui, desta história que conheci pessoalmente. Lembro-me de ter levado semanas a pensar sobre isto, de chorar, de sentir pena, de me dizer a mim própria que «quem tem pena são as galinhas», e que eu não tinha o direito de sentir pena de ninguém. Quanto muito, poderia sentir-me solidária, sensível, atenta, humana, por saber que há sempre quem tenha de ter mais força do que nós. Mas, sem ver nisto algo negativo, era, sim, também pena que eu sentia. Pena no sentido de compreensão que dói e que assombra e que nos faz desejar que determinadas situações nunca tivessem de ser vividas por ninguém.

Lembro-me de o ouvir dizer que, durante os primeiros meses, aquilo que ele mais queria era morrer. Que não tinha forças para aceitar a vida como ela, de repente, era. Lembro-me de pensar no quão importante é recebermos apoio, força e compreensão dos outros em momentos, como aquele, em que não as encontramos em nós. Lembro-me, contudo, de ele me confidenciar que eram imensas as vezes em que as pessoas — não apenas as desconhecidas, que iam na rua, mas as conhecidas, as íntimas, as próximas — lhe diziam, quando perdiam a cabeça, que ele lhes «metia nojo» e que nunca viria a ser alguém na vida.

Mas é.

Sei que este medo — da forma drástica e irreversível como a vida muda num repente — ainda não perdi. Cresceu comigo. Faz parte de quem sou.

Independentemente disso, hoje, conduzo e adoro. Mas nunca me esqueço que as coisas más não acontecem só aos outros. Acontecem, simplesmente, a alguém.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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