Vamos terminar este ano juntos?

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Estou sentada, dentro do avião. Vou a caminho de Portugal. Vou, na segunda fila, com a janela no meu lado direito. Olho e vejo o céu negro, as luzes alaranjadas do pôr do sol, as riscas azuis escuras e um quase avermelhado, que parece fogo. Escrevo no tablet, com as minhas duas mãos — uma de cada lado — a dedilharem sobre um teclado digital. Nos ouvidos, os auscultadores: a música, sempre a música, que me impulsiona a escrita — porque me impulsiona, sobretudo, as emoções. E, entre deixar que o meu pensamento vagueie para longe, pensar em tudo o que vai acontecendo e lançar-me questões para o ar que me entretenho a responder — como num exercício digno da idade dos porquês, ao estilo «o que nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?» —, sinto esta vontade de fechar os olhos, de ouvir apenas a música, de dançar com os braços soltos, o vento no corpo e deixar-me ir.

«A minha página apeteces-me está quase morta», penso, quando o pensamento me foge da dança, que é o lazer, e vai ali para os lados do trabalho, da obrigação. A minha página, a que me dediquei durante dois anos, já não tem fogo. Porque eu, por ela, já não o sinto. A inspiração também se esgota. E o meu trabalho exige, todos os dias, todas as horas, que eu crie. Criar já não é um escape — algo que surge para desanuviar, numa hora específica do meu dia, de um dia de trabalho com os miúdos numa escola qualquer, ou de um dia inteiro a lançar faturas num departamento comercial de uma empresa de carros. Criar — tentar dar estética a algo, reparar nos detalhes, equacionar as cores, conjugar as palavras, analisar estatísticas, criar campanhas — é a minha rotina de todos os dias, que me paga contas, e que, muitas vezes, já surge de forma mecânica. Não me estou a queixar. Porque, hoje, posso dizer que trabalho naquilo que gosto, sabendo que chegar aqui foi um caminho que levou tempo, exigiu trabalho, perseverança, vontade de aprendizagem e estômago, muito estômago, para aceitar os falhanços e seguir em frente — e que, devo dizer, foram vários, e ainda o são, porque falhar faz parte de quem se arrisca.

Mas, se isto é maravilhoso — trabalhar no que gosto —, tem também o seu lado menos bom. É que o meu escape já não é desafiar-me a criar algo novo todos os dias — porque crio tanta coisa nova todos os dias. O meu escape já não é desafiar-me a escrever 200 textos de poesia, sobre o amor, em apenas um mês — porque também já o fiz. O meu escape já não é apreciar o gosto de ter uma página com 120 mil seguidores — sobretudo, porque são 120 mil seguidores que eu não sei quem são, que não conheço, com os quais não interajo, que não interagem comigo. Eu sei que eles me leem — porque vejo os números das visitas desta página, deste blog e sei que são ainda dezenas de milhares os que cá veem, todos os meses, ver se escrevi algo de novo. Confesso: gabo-lhes a persistência e o interesse pelo que eu (não) escrevo, porque eu já tinha desistido de cá vir há algum tempo. Mas estes milhares são, apesar de tudo, apenas um número — pelo menos, deste lado. E um número, por muito orgulho que me tenha dado atingir — pela dedicação que sei que está envolvida nesse objetivo —, não chega para me manter apaixonada por isto. Desse lado, esse meu esmorecimento nota-se — pela escassez de conteúdo. Porque este é mais um lugar onde me sinto forçada a pensar em estética, em equilíbrio, em poesia, em arte. E eu quero um escape. Não uma continuidade.

Sentada, ainda dentro no avião, parei, por uns minutos, a escrita deste texto para observar o rasto fundo de um avião a passar pelo céu vermelho-quase-fogo. E, no meu íntimo, sei que aquilo que me apetece, antes de matar já este blog, é quebrar a sua rotina. E escrever algo diferente. Algo que poderá não interessar a ninguém. Algo que poderá ser apenas tédio absoluto. Mas que é algo que me apetece fazer. E, da mesma forma como procuramos fazer sempre uma última tentativa a sério antes de terminarmos uma relação, esta é a minha tentativa a sério para reaver um pouco da paixão que já senti por isto — e que, no fundo, como se fizesse parte de quem sou, e faz, sinto pela escrita em si.

A poucos dias do ano terminar, é, aqui, neste voo, nesta vista pelo céu vermelho-quase-fogo, que me lanço este desafio: um novo artigo todos os dias até ao final do ano. Mas não um artigo, forçosamente, sobre o amor. Não um artigo, forçosamente, poético. Porque desses já cá encontram às centenas nesta página. Quinze dias com um artigo novo, todos os dias, sobre a vida, a minha vida, a vida que me rodeia; sobre os sentimentos, os meus e os daqueles que conheço; a rotina, a minha e a daqueles com quem lido. E, se me apetecer escrever apenas sobre o amor, escreverei apenas sobre o amor. Se me apetecer divagar sobre a cor da chuva apenas, fá-lo-ei. Fá-lo-ei sempre na primeira pessoa, porque serão 15 dias pessoais, meus, reais, de mim: mundanos, triviais, mas que partilho convosco. Sem estar preocupada com estética, poesia, estatísticas ou branding. Mas apenas com, pela primeira vez em muito tempo, deixar-me ir.

Quem me quiser acompanhar, quem quiser manter-se por cá, quem quiser aceitar este desafio de ter paciência para me ler nos próximos 15 dias, é bem vindo. Que não espere nada de outro mundo, porque é a este mundo que eu pertenço, como todos nós. Que espere, sim, o que esperaria de uma conversa de café sobre o mesmo de todos os dias. Porque é isso que a vida é. Afinal de contas, mais do que ser para mim, isto é para nós — e é isso que nós somos: distintos, singulares, mas tão previsivelmente semelhantes.

Vamos terminar este ano juntos? Até ao dia 1 de janeiro: todos os dias, aqui, a partir de… Já!

(E acabei de aterrar. Olá, Portugal.)

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.