Às vezes, é preciso saber desistir

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Fotografia © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Laura Almeida Azevedo

E aí estás tu: a olhar para a tua vida, sem saberes muito bem o que fazer com ela. Afinal de contas, foram anos e anos a ouvir histórias que te diziam que o amor aguenta tudo. E a ouvi-las da boca daqueles que tens em tão boa consideração: os teus pais, os teus avós. Quase todos, sem exceção e à distância do tempo, fizeram-te crescer a associar sempre à perseverança e à aceitação a felicidade que as verdadeiras histórias de amor merecem. Foram anos da tua infância a ouvir cada uma das suas histórias e a sorrir com elas, a sonhar, a projetar no futuro um amor assim: forte, resistente a tudo, capaz de prevalecer no envelhecimento, capaz de criar raízes eternas. Talvez não poucas vezes, disseram-te: «Quando é amor, é para sempre.» «Não há amor sem problemas, sem dificuldades, sem perseverança.» Entre os lanches em família e as festas de natal, onde todos se sentavam a conversar e os mais velhos adoravam partilhar as suas experiências com os mais novos, talvez a tua avó te tenha até confidenciado: «Oh, se não tivesse sido eu a insistir e a fazer por manter esta relação naquela altura, eu e o teu avô já não estávamos juntos.» E o mais importante de tudo: «Nunca se deve virar as costas àqueles de quem gostamos.»

Não que estas afirmações acima estejam forçosamente erradas. Sim, quando é amor de verdade, quando é amor a dois e os dois fazem das tripas coração para permanecerem juntos, pode ser eterno — «até que a morte nos separe». Sim, todas as relações têm as suas fragilidades, todas podem quebrar a qualquer momento, se não houver respeito, se não houver vontade de fazer malabarismos de equilíbrio com um só pé — e com aquele que tem menos força. Sim, dentro das relações, há fases e momentos em que este está mais presente do que o outro, em que o outro tem mais dúvidas do que este, em que este não acredita quando o outro sim. As relações duradouras necessitam de acompanhar as pessoas e as pessoas estão em constante alteração interna: vão adquirindo novos gostos, novos hábitos; vão conhecendo pessoas que confrontam, direta ou indiretamente, a maneira como encaram a vida; têm crises de idade e, quando estas crises chegam para um, nem sempre o outro as sente na mesma altura — e, se um quer, de repente, correr o mundo porque tem medo de morrer sem realizar os seus sonhos todos, o outro talvez encontre mais conforto imediato no sossego da sua casa, nos filmes e nos jantares em família.

Foram anos e anos a aprender que «o amor aguenta tudo» e que «nunca se deve virar as costas àqueles de quem gostamos», porque, quando há amor, quando há vontade, a vida acontece sempre a favor — por mais dificuldades que existam pelo caminho. E, de alguma forma, é exatamente por tudo isto que tu ainda aí estás: a olhar para a tua vida, sem saberes muito bem o que fazer com ela. Afinal de contas, foram anos e anos a ouvir histórias que te diziam que nunca se deve desistir. E é isso que te mantém exatamente aí: a reviver, de forma desenfreada, aquilo que existiu um dia. Porque aprendeste que desistir é para os fracos. Porque aprendeste que um amor que valha a pena nem sempre começa da melhor forma. Porque aprendeste que, por vezes, um tem de ser mais forte do que o outro e insistir pelos dois. Porque, no fundo, bem aí no fundo, acreditas que as melhores histórias de amor irão sempre arrancar-te tudo de dentro — o melhor e o pior de ti — e colocar-te à prova, nem que tenhas de chorar lágrimas de sangue, de virar o mundo ao contrário, de subir montanhas, de suportar a dor e de morder o orgulho.

Mas acabou. E — independentemente do quanto insistes, do tanto que te permites sentir em prol de uma história que pode vir a ser a história da tua vida, das provas diárias que tentas a todo o custo ultrapassar, das lágrimas de sangue e da raiva silenciosa que te dá vontade de virar o mundo ao contrário, de morder a dor que te dilacera e o orgulho que te grita que já é demais —, acabou. A pessoa de quem gostas já não está aí contigo. A pessoa de quem gostas já não volta. A pessoa de quem gostas já não quer mais — da relação, de ti.

Só que tu continuas a não o querer aceitar. Continuas a arranjar subterfúgios para justificar o abandono, o fim. Continuas a reler as mesmas mensagens, vezes sem conta, e a imaginar entrelinhas feitas de palavras que não estão lá — que não estão lá porque, embora a outra pessoa as soubesse escrever, decidiu não o fazer. Continuas a arrastar os dias, as semanas, os meses e, algures, dentro de ti, apesar de todo o silêncio, fazes por acreditar que ela poderá estar a sentir o mesmo por ti; que, quando te dói a saudade, quando te dói o amor, talvez seja porque ambos estão a pensar um no outro e a sentir a mesma coisa. Continuas a mentir-te, a recusar-te o luto e a adiar a nova vida que tens pela frente. Continuas, porque, de alguma forma, aprendeste a viver assim ultimamente e não consegues sair daí.

E porquê? Porque, algures — apesar de a vida te mostrar que, afinal, o amor não aguenta tudo —, é mais bonito pensar que sim. Porque, algures, continuas a acreditar que uma boa história de amor também tem os seus valentes momentos de drama. Porque, algures, aí no fundo, onde dói, onde dilacera, até acreditas que desistir é para os fracos e que virar as costas é desrespeitar uma oportunidade rara para um final feliz.

Mas, enquanto tu choras lágrimas de sangue, é tão provável que a outra pessoa esteja distraída com a vida fantástica que leva sem ti. Enquanto tu arrastas os dias, as semanas e os meses, fazendo cruzes nos dias do calendário, ela não está preocupada com dias, nem com semanas, porque quer aproveitar o agora e o já. Enquanto tu ainda te demoras a acreditar no que sentiram um pelo outro e na relação que tiveram, ou que poderiam ter tido, a outra pessoa talvez se demore nos braços de uma nova pessoa — enquanto juntos acreditam no que sentem um pelo outro e na relação que estão dispostos a construir depois de ti.

Foram anos e anos a aprenderes que o amor é um sentimento demasiado nobre para se desistir dele. Foram anos e anos a dizerem-te, nas entrelinhas, que tens de ser forte, que tens de aguentar, que tens de acreditar — porque, mais tarde ou mais cedo, a recompensa vem. São anos e anos que te permites viver em função destas frases — e com medo das suas sentenças. Anos e anos da tua vida assim.

Reformula-te. Reorganiza as tuas ideias, os teus conceitos. Reorganiza as tuas prioridades e sai desse estado de auto-mutilação, como se sofrer por um amor não correspondido te desse direito a viver um amor gigante depois. Aceita que, às vezes, é preciso desistir. Às vezes, é preciso aceitar que se perdeu. Às vezes, é preciso morder o orgulho, calar as emoções, virar as costas e esquecer. Às vezes, desistir de alguém não faz de ti uma pessoa pior. Faz de ti alguém que sabe que desistir de quem lhe faz mal — direta ou indiretamente — é, sobretudo, não desistir de si.

Foram anos e anos a aprenderes aquilo que, agora, vais ter de desconstruir para conseguires sair donde estás e voltares a ser feliz. E, se as frases com que cresceste servem de métrica para a tua vida, foca-te nesta: «Mais vale tarde do que nunca.» Desiste do que, hoje, te dói para que não estejas a desistir do que, amanhã, te pode vir a fazer feliz. E sorri, porque, se «as verdadeiras histórias de amor são eternas», isso significa que a tua ainda está para vir — ou talvez não, mas isso é o que tu tens de te permitir descobrir: vivendo a nova vida que aí vem. 

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.