Despida

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Acorda despida, debaixo dos lençóis brancos, com o braço debruçado sobre o chão de madeira. Hesita, por uns segundos, até permitir que a luz da manhã surja por entre as pálpebras semi-cerradas dos olhos, como um véu branco, suave, quase transparente, a deixar-se derramar lentamente sobre o seu corpo. Vê, então, a janela alta, aberta; os prédios em frente ao seu; as roupas espalhadas pelo chão e a caneca vazia, ainda do dia anterior, no tampo da mesa de cabeceira. Enrola o lençol entre uma das pernas e assim fica, deitada de lado, a olhar a manhã — a recordar-se de tudo. Respira fundo. Apenas o tic-tac do relógio branco.

Ele tinha chegado de um dia prolongado a trabalhar. Meteu-se dentro da cama, sem pronunciar uma só palavra, depois de um «boa noite» fugidio, que soltou ainda à entrada de casa. Antes de se deitar, despiu a blusa e as calças, atirando-as para a cadeira e acabando por cair no chão. Assim as deixou ficar. Já na cama, para adormecer, meteu os auscultadores e deixou-se marinar nos vídeos de youtube e nos artigos da web que despertavam sempre a sua atenção — mais, por vezes, do que ela. Minutos depois, adormeceu com o tablet a cair-lhe das mãos. Mas nem isso o acordou. Os auscultadores, esses, ficaram ali, nos ouvidos, a depositarem sons agudos no silêncio surdo que restava entre ambos.

Deitada de barriga para cima, ao seu lado, ela mergulhava o olhar no teto do quarto: grande, nu, branco, parecendo estar tão longe, mas simultaneamente tão perto, que lhe parecera faltar o ar. Depois, prendeu-se a olhar pela janela. A escuridão da noite denunciava quatro ou cinco janelas iluminadas nos prédios vizinhos, um vizinho a fumar numa varanda e uma mulher a estender a roupa no estendal da cozinha. Já estaria habituada a isto. «As coisas com que prendo a minha atenção…», lamentou. Ao seu lado, ele já dormia profundamente. Adormece sempre rápido. Ela salteava os dedos pela barriga e assim ficou, a olhar a janela, o teto imenso e a contar carneiros ao estilo adulto: a pensar nas milhares de coisas que tinha para fazer hoje, amanhã e depois de amanhã.

Eram quatro da madrugada quando ele, sentindo-a dar ainda voltas na cama, pareceu acordar. Estremunhou qualquer coisa que ela não percebeu. Olhou para o relógio: já dormia há quatro horas — enquanto ela, numa insónia prolongada, como tantas outras, não tinha ainda sequer fechado os olhos. Voltou a deitar a cabeça na almofada e adormeceu — ele. Ela não. Ela ficou ali, a ouvir-lhe a respiração profunda e a sentir a cabeça cada vez mais pesada, o cansaço cada vez maior, até que, por fim, lá pelas cinco da manhã, adormeceu.

Agora, ali, acabada de acordar, o que resta da noite anterior é só uma recordação que preferia não ter de recordar. «Há coisas piores», pensa. É verdade: há sempre coisas piores que podem acontecer, há sempre coisas piores que podem marcar, há sempre coisas piores que podem ser sentidas. No entanto, nada disso anula nenhuma das outras pequenas-grandes coisas menos boas que vão acontecendo na vida.

Ontem, ela tinha estado à espera dele. Querendo fazer-lhe uma surpresa, tinha-se deitado à espera dele: nua. Podia sentir o toque suave dos lençóis na pele despida do corpo. Era a surpresa que lhe queria fazer: entregar-lhe, uma vez mais, o corpo nu, despido de preocupações, de correrias, até à exaustão de ambos. Ele, por sua vez, tinha feito o que era hábito fazer: olhou-a, mas de relance e, aparentemente, não a viu. Não se aproximou sequer o suficiente para lhe sentir o toque da pele nua, nem o seu calor. Ou, se o sentiu, terá fingido que não.

Perdida em deambulações, volta a olhar a janela alta, aberta, os prédios em frente ao seu, as roupas dele espalhadas pelo chão e a caneca vazia, ainda do dia anterior, no tampo da mesa de cabeceira. Respira fundo. «É mais um dia…», diz para si. E fecha os olhos. Lamenta não ter conseguido evitar que a luz da manhã lhe surgisse por entre as pálpebras ainda semi-cerradas dos olhos. Encolhe os ombros. Murmura: «Não há nada a fazer.» Mas, na verdade, há. Na verdade, há sempre alguma coisa que se pode fazer. Mas não hoje. Não para ela. Ao fundo, apenas o tic-tac do relógio branco.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.