READING

Eram os pés um do outro

Eram os pés um do outro

Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela está sentada a uma mesa. É de noite. Está escuro. Apenas as luzes com cores garridas, refletidas nas paredes, ziguezagueando o espaço, a dançarem sobre os seus ombros quase despidos. Ela segura um copo na mão e, fechando os olhos, deixa-se levar. Sente a música. Abana, suavemente, o corpo. Ondula, quase de forma invisível, a anca. Fica assim por minutos. Nada mais existe ali, além da melodia, do álcool fresco a humedecer-lhe a garganta, da ondulação do corpo, do prazer de se deixar ficar.

Ele chega. Olha em redor. À volta, uma multidão de corpos, as luzes garridas, os ombros despidos de outras tantas mulheres, as suas ancas ondulantes, os seus sorrisos que mordem os lábios e a música. Pede um copo. Aguarda. Leva-o aos lábios e bebe um gole. Encosta-se ao balcão e varre a sala com um olhar curioso. Do outro lado, alheada a tudo, ela. Ela e a sua dança subtil. Ela e o seu sorriso ténue. Ela e os seus ombros dourados, debaixo das luzes. Ela, que se deixou levar, que se deixou assim ficar, que agora abre os olhos. E, de repente, que o vê: afastado, de copo na mão, de olhar curioso, de sorriso atrevido, a olhá-la.

E o mundo deixa de existir. Só a música. Só as luzes. Só o atrevimento. Só a curiosidade nos olhares e os sorrisos desprovidos nos lábios atrevidos.

Ele aproxima-se. Ela não ergue escudos. Acena-lhe. Sorri-lhe. Ele sorri-lhe de volta. Ela humedece, discretamente, os lábios num gesto que a compromete. Ele senta-se na cadeira. Ela recua o olhar e baixa-o na direção das mãos. Ele pousa o copo e, com um levantar de sobrancelhas, convida-a a dançar. Ela sorri. Não está habituada a estas coisas, mas não consegue evitar as borboletas na barriga. E vai.

E o mundo deixa de existir. Só o perfume dele. Só as ancas dela. Só o olhar nu e o sorriso vermelho, de paixão. Só a melodia nos corpos e a liberdade nos risos. Só os corpos a ondularem, desprovidos. Só.

E, ali, nada mais importa. Porque, ali, são livres. Ali, a vida pode acabar já amanhã. Ali, cada segundo conta, cada instante importa para saborear a vida. Ali, não há amarras, nem se quer que as haja.

Dançam até ser manhã, entre as luzes, a melodia e os sorrisos. Nunca mais se tornam a ver. Nunca chegam a conversar sequer. Mas nem isso importa. Importa, ali, sim, naquela madrugada feita de melodia, naquela madrugada feita de luzes, naquela madrugada livre, que, de alguma forma e sem perceberem como, sabiam quem eram.

Eram os pés um do outro. E a música dentro dos corpos, como se fossem apenas um.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

Deixa aqui o teu comentário:

INSTAGRAM
SEGUE-ME NO INSTAGRAM
error: Copyright © Este conteúdo está protegido!
%d bloggers like this: