Aconteceu: a vida é assim

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Fotografia © Laura Almeida Azevedo

Gostava de voltar atrás no tempo. Gostava que fosse possível voltar a um qualquer momento da minha vida, nem que fosse apenas por instantes. Gostava de levar comigo, nesse regresso, aquilo que sei hoje e a capacidade que, agora, tenho de olhar para mim à distância que só os anos me foram permitindo.

Gostava de poder ter, de novo, oito anos. E de estar ali, a saltar ao elástico, entre as aulas de português e de matemática. Gostava de ali estar, de novo, naquela sala de aula, sentada à secretária de madeira, distraída entre os bilhetinhos e os meus lápis de cor preferidos, entre as contas de matemática e as minhas deambulações internas, que me arrancavam a atenção de tudo o que pudesse estar a acontecer à minha volta. E de, ao voltar a ter oito anos, me dar a mão, me perguntar no que estava a pensar, me contar uma história e de me dizer a mim própria que nunca deveria permitir à vida que me colocasse em causa e que me fizesse deixar de sonhar.

Gostava de ter, de novo, quinze anos. Gostava de, ao ter novamente quinze anos, me lembrar de tudo aquilo que sinto e penso hoje. Gostava de me poder olhar ao espelho, sem vergonhas, sem constrangimentos — ora por ser demasiado magra, ora por não ter peito, ora por causa dos meus dentes afastados ou das sobrancelhas demasiado carregadas. Gostava de me poder olhar exatamente como era, sabendo, agora, sim, o quão bonita era. Gostava de poder conversar comigo nessa altura: de me explicar que todas as inseguranças são inúteis, que os medos só são relevantes se vivermos em função deles, que a beleza de cada um também está na sua diferença. Gostava de me poder explicar — a mim, àquela rapariga de quinze anos — que o melhor que poderia fazer, por mim, seria perder a timidez para falar, a insegurança para defender uma ideia, a falta de coragem para pedir um favor.

Gostava de ter, de novo, vinte anos. Gostava de estar ali, naquele dia, quando fiz as malas para sair da casa dos meus pais. Gostava de estar ali, naquela manhã, em que percebi que crescer era muito mais difícil do que tinha previsto: porque há tanta coisa que foge do controlo; porque os adultos também se permitem, por vezes, viver no medo; porque os adultos, tantas vezes, choram, em desespero, sem fazerem a menor ideia de qual vai ser o dia de amanhã, sem coragem para tomar a única decisão que deveriam tomar. Gostava de ter, de novo, vinte anos para me dizer a mim, ali, que, independentemente do que me fizessem, independentemente do que fosse forçada a sentir e a viver, e dos erros que viesse a cometer, que as minhas principais prioridades de vida deveriam ser sempre, sempre estas: Sonhar. Acreditar. Lutar. Não me permitir prender a quem me tentasse dificultar o caminho. Gostar de mim.

Gostava de ter, de novo, vinte e cinco anos. E de estar ali, naquela época, quando senti, pela primeira vez, a liberdade de viver sozinha, de tomar decisões apenas por mim, de escrever pela noite fora numa casa minha, de me olhar ao espelho e de, finalmente, sentir orgulho em mim. Gostava de me poder fazer companhia, em algumas daquelas madrugadas, contando-me histórias que gostava tanto de ouvir. Gostava de ter, de novo, vinte e cinco anos para me poder dizer que aquela era uma fase tão importante na minha vida. E que ficava linda de qualquer maneira: de cabelo solto, ou preso; despreocupada com o que seria esperado; livre na minha forma de sentir, de estar e de acreditar no amanhã. E acreditava tanto no amanhã.

Gostava de ter, de novo, trinta anos: porque os meus trinta sofreram bastante com aquilo a que, hoje, se chama de «a crise dos trinta». Foi a idade em que voltei, por cinco meses, a estudar na universidade. Foi a idade em que me cruzei, todos os dias, com raparigas de vinte anos, de pele fresca, de olhos cintilantes, de barrigas lisas. Foi a idade em que comprei o meu primeiro creme para a cara, a minha primeira base; em que engordei quase dez quilos, por me refugiar no prazer da comida; em que ganhei vergonha de me olhar pelo reflexo das montras das lojas, pelas quais ia passando nas ruas, e em que me obriguei a uma dieta abrupta, em que contava todas as calorias para conseguir perder dez quilos — que, com muito esforço, perdi e que, com muita facilidade, voltei a ganhar. Foi a idade em que fiquei desempregada. Foi a idade adulta em que menos acreditei em mim, em que menos acreditei no meu futuro. Foi a idade adulta em que me senti presa, dentro da minha repentina falta de autoestima. Foi a idade adulta em que deitava a cabeça na almofada e, pela primeira e única vez na minha vida, pensava na morte: não queria morrer já, porque ainda me faltava tanto, porque ainda me faltava quase tudo, mas, sobretudo, faltava-me voltar a sentir útil. Gostava de ter, de novo, trinta anos para me deitar ao meu próprio lado, para me abraçar com força, para me fazer companhia nas insónias angustiantes. Mas, sobretudo, para me dizer, ali, que ia ainda a tempo de tudo; que a vida dá voltas e voltas; que nunca mais voltaria a ter trinta anos e que os trinta anos de qualquer pessoa são motivo suficiente para, só por si, se sorrir, acreditar, não se desistir e para se pensar apenas no «agora», no que vai ser: porque, aos trinta anos, se quisermos muito e fizermos por isso, vai ser tudo o que quisermos.

Hoje, tenho trinta e seis. E sei que, um dia, vou olhar para trás e dizer: «Gostava de ter trinta e seis anos.» Em todos os anos, por que passamos, aprendemos. Em todos, somos desafiados, testados, encostados à parede, obrigados a fazer escolhas — por vezes, escolhas a quente, por impulso, sem tempo e sem fazermos a menor ideia do que aí vem. Em todos, deixamos de ser quem éramos e passamos a ser uma outra versão de nós, uma pessoa diferente. Todos nos mudam: nem que seja um bocadinho — o suficiente para, por vezes, nos questionarmos em que momento exato é que mudámos e, por mais que olhemos para trás, não conseguirmos perceber quando. Aconteceu. A vida é assim.

Hoje, com trinta e seis anos, continua a haver alturas em que ainda me sinto com trinta, com vinte e cinco, com quinze e até com oito. Não salto ao elástico, mas brinco doutras formas. Não me sinto perfeita, mas há dias em que me sinto resistente a tudo e capaz de tudo por mim. Não me sinto deprimida, mas há dias — outros — em que os anos me pesam mais do que aqueles que realmente tenho, em que não sei qual é o sentido da vida em si e da vida que levo, nem o que ando por aqui a fazer. Há dias em que a vida é o melhor de tudo, mesmo sem saber as suas razões e motivações. Noutras, venha o diabo e escolha.

Hoje, com trinta e seis anos, a vida parece-me tão pequena e tão grande; tão rica, mas tão pobre, às vezes. Perdemos pessoas pelo caminho. É verdade que ganhamos outras, mas perdemos tantas pelo caminho — pior: permitimo-nos perder tantas pessoas pelo caminho. E tantos sonhos também, mesmo sabendo que, na maioria das vezes, ganhamos outros para substituir os que perdemos. Mas perdemos, mesmo assim, tantos sonhos pelo caminho. E o tempo é esta coisa estranha, que não conseguimos medir, senão através de datas e de idades.

Mas, independentemente de tudo o que vivi e de todas as idades por que passei, continua a haver cinco coisas que me digo e que espero ter a coragem e a lucidez de me continuar sempre a dizer:

Que devo escolher o meu percurso, por mim, e sonhar o que me faz feliz — mesmo que sejam sonhos simples, que sejam meus. Que devo acreditar que sou digna deles — porque, se são genuinamente meus, são eles que são dignos de mim. Que não devo baixar os braços, pois sonhar não chega: é preciso agir, insistir, prevalecer. Que quem me tentar persuadir a seguir um percurso diferente, só para me desconcentrar do meu, não me faz falta: e, por mais que me seja difícil isto, devo ter o discernimento suficiente para o afastar da minha vida, para não me deixar diminuir pelo seu negativismo, nem oprimir pela sua falta de caráter. E, independentemente de tudo, mesmo quando os sonhos me falharem, mesmo quando a minha persistência precisar de recuperar o fôlego, mesmo quando me tentarem fazer recuar, devo ser forte e acreditar nas minhas capacidades — porque as tenho e, ainda que possam não ser visíveis para os outros, acredito que sejam várias e válidas.

Tenho trinta e seis anos e não vou afirmar que esta é a maior lição de vida que tive até hoje, porque houve muitas outras igualmente importantes — e muitas outras que provavelmente serei forçada a aprender nos próximos anos, da mesma forma que o fui para aprender esta. Mas é, seguramente, uma das maiores e mais importantes lições que qualquer um de nós deveria reter daqui, de todo este emaranhado de dias que se vai vivendo. É tão simples, óbvia, mas leva tempo até nos ser evidente o direito que temos a reinvindicar tudo o que ela nos diz.

Mas, quando finalmente a aprendemos, estamos tão mais preparados para suportar tudo o que vier. E, quando assim é, o resto? O resto até nos pode desequilibrar. O resto até nos pode mandar ao chão — por momentos. Mas não nos desvia do nosso objetivo.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.