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Ela nunca mais foi a mesma sem ele

Ela nunca mais foi a mesma sem ele

Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A vida nunca mais foi a mesma, desde aquele dia em que se cruzaram, por acaso.

Os dias nunca mais tiveram o mesmo tempo: passaram a ser demasiado longos, enormes. As palavras nunca mais tiveram a mesma tranquilidade: passaram a ser demasiado urgentes. Até os sonhos mudaram. Os que mudaram demasiado tornaram-se irrequietos, vazios, amedrontados. E os que quase não mudaram acabaram por se tornar mais importantes do que o resto, como se, de alguma forma, quisessem compensar os que tinham mudado demasiado.

A vida nunca mais foi a mesma, desde aquele dia em que se cruzaram, por acaso.

Por instantes, tornou-se maior. Tinha mais luz. Ficou mais quente. Parecia ter apenas dias de sol. E de histórias para contar. E de suspiros que carregavam, neles, o peso do «quero-te tanto» e do «quero-te tudo». E, enquanto suspiravam, davam abraços de olhos fechados, que sentiam tanto, que precisavam de tudo. Enquanto suspiravam, o mundo inteiro parecia caber-lhes dentro do abraço, dentro do doce e murmurado «gosto tanto de ti». Enquanto suspiravam, doía-lhes. Mas era uma dor doce de amor, de quem precisa do outro, de quem tem o coração fora do corpo, de quem tem o coração nas mãos do outro.

Depois, de repente, afastaram-se. E a vida, que era enorme, tornou-se pequena outra vez. Mas, desta vez, não sendo apenas pequena, tornou-se quase claustrofóbica. A vida, afastados, quase perdeu, por longos meses, o sentido. Deixou-lhe um buraco no peito. Pareceu ser feita de dias que nunca mais terminavam. Pareceu ter lágrimas que nunca mais acabavam. Pareceu ter uma dor que não lhe desaparecia do peito, que a apertava com força, que a ia destruindo por dentro. Pareceu ter silêncios que doíam e ausências que eram contadas aos milésimos de segundos. Pareceu ter palavras que, afinal, ganharam um novo sentido e outras que deixou de conseguir pronunciar. Pareceu ser tudo isto que… foi, porque a vida nunca mais foi a mesma, desde aquele dia em que se cruzaram, por acaso.

Tudo mudou. Ela mudou. Ele? Dele ela não sabe. Sabe apenas que ela mudou. Porque se muda sempre demasiado quando se gosta assim, tanto. Muda-se sempre demasiado quando, apesar de tudo, tudo, ainda se sente; quando não se esquece; quando ainda parece que se vai gostar para sempre.

E ela sabia disso. Ele? Talvez não. Mas ela sabia disso. Porque ela, como a vida, nunca mais tinha sido a mesma, desde aquele dia. E, passassem os anos que passassem, era dele que ela continuava a sentir tanta falta. Ainda.


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por fotografia, pessoas, cidades grandes e esplanadas com luz.

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