Ainda estás aqui: comigo, em mim

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

O que te posso dizer? Que os dias se tornaram suportáveis, mesmo contigo já não estando aqui? Que consigo respirar o ar fresco das manhãs e sonhar sonhos que já não te tenham dentro? Que já oiço as mesmas músicas, que ouvia naquela altura, sem ter vontade de chorar? Que, em vez disso, sorrio, danço e deixo-me levar?

Sim. Posso dizer-te tudo isto. Porque é verdade.

Os dias tornaram-se suportáveis. Já não são só dias de inverno. Consigo respirar o ar fresco das manhãs e saborear a calma do mundo, sem sentir que, a qualquer instante, expludo num turbilhão. Já sonho sonhos que já não te têm dentro — e sabem-me tão bem, que, por vezes, nem tenho vontade de deles acordar. Também já ouço as mesmas músicas — que, naquela altura, me pareciam ter sido escritas para nós — e, em vez de chorar, sorrio com ternura, por saber tão bem que há amores assim.

Sim. Posso dizer-te tudo isto. Porque é verdade.

Mas continuas presente. E eu continuo, embora de uma forma diferente, a sentir que o teu nome ainda dança na minha língua, cada vez que o pronuncio. E continuo a gostar de o pronunciar. Continuo a sentir que, algures, aqui dentro, o meu coração ainda chora por ti, ainda pesa por ti, ainda te reconhece. Continuo a sentir que não consigo apagar o que senti, o que desejei, o que sonhei, no que acreditei. E continuo a acreditar que só assim foi, porque não poderia ter sido de outra forma: não poderia ter sentido outra coisa, qualquer outra, senão aquela, por ti.

O que te posso dizer? Que o tempo apaga quase tudo e que a vida continua? Que devia ter sido mais forte e lutado pelo que senti? Que os dias foram longos, as noites tão duras, as emoções tão intensas e a dor tão desconcertante, que só um louco se mantém imóvel, perante tamanha tempestade emocional? Que houve momentos, dias, semanas, que perdi a minha lucidez? E que quase me escapei pelas minhas próprias mãos? Que uma paixão assim — qualquer uma que seja — deveria ter sido vivida até não haver mais terra por onde caminhar, nem sonhos para sonhar?

Sim. Posso dizer-te tudo isto. Porque é verdade.

Mas, por vezes, acontece demasiado. E o que sentimos é tão inesperado, que a única coisa que somos capazes de fazer é ficarmos quietos, em silêncio, à espera, a tentar recuperar o fôlego. Para que doa menos. Para que não ferva tanto. Para que não enlouqueçamos. Porque, às vezes, sim, acontece demasiado — e sentimos tanto, tanto. Somos apanhados de surpresa. Não sabemos como lidar com as situações. Recusamo-nos. Fugimos de nós. Queremos ser mais fortes. E temos medo.

Sim, porque também temos medo do que nos vira o mundo ao contrário.

O que te posso dizer? Que o tempo pode apagar quase tudo, mas que ainda não te apagou de mim, embora já não me desoriente? Que é, agora, um sentimento calmo, mas consciente? Que, antes, acreditava que ia esquecer tudo com o tempo — por raiva, por conformismo, por orgulho. Mas que, hoje, sei que, mesmo tendo ultrapassado a dor e a angústia, a impotência e o desespero, talvez nunca consiga tirar-te, por fim, daqui, de mim? Que, algures, nesse mesmo tempo que quase tudo apaga, que quase tudo mata, sei que só senti o que senti, por ti, porque não poderia ter sentido outra coisa? Que fugir de ti, esquecer-te: é fugir de mim, esquecer-me?

Sim. Posso dizer-te tudo isto. Porque é verdade.

Porque ainda estás, algures, aqui: comigo e em mim. E porque o teu nome ainda me dança na língua, apesar de tudo, tudo.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.