Um doce «amo-te»

10946
Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Todos os dias, quando ela acordava, pensava nele. Não importava quantas horas dormia, nem o que tinha feito na noite anterior. Nem se tinha de se levantar depressa, ou se podia ficar demorada na cama a olhar o sol, que nascia no outro lado da janela. Todos os dias, quando ela acordava, pensava nele. E nas palavras que tinham trocado, nas canções que ele lhe tinha cantado, nos poemas que ele lhe tinha escrito, nas declarações poéticas e sentidas que ele lhe tinha feito ao ouvido. Pensava nele, juntos. Nos tempos em que nada mais importava, senão isso.

E era como se ainda o ouvisse: a voz doce, grossa, firme, com que ele lhe dizia sempre «amo-te» e, depois, com que ele lhe contava as histórias engraçadas do seu tempo de juventude. Histórias que faziam com que ela, que só o conheceu já em adulto, sentisse que o tinha conhecido desde sempre.

Todos os dias, quando ela acordava, lhe doía o corpo. Por causa das saudades que sentia dele. Da falta que ele lhe fazia. E das palavras que ele já não lhe dizia. Dos sonhos que já não podiam partilhar juntos, imaginando-se capazes de sonhar sonhos que pareciam ter tanta força, que nada nunca, jamais, acabaria com eles.

Mas tinha acabado. Há tanto tempo.

Todos os dias, quando ela acordava, ficava ali. Não abria os olhos. Mantendo-os fechados, era como se pudesse permanecer no sonho.

E, então, ouvia-o a pronunciar ao ouvido um doce «amo-te». Um «amo-te» que parecia ser um «amo-te ainda tudo e para sempre». Um «amo-te» que, para ela, era como uma promessa de que nunca mais, nunca, nunca mais ele deixaria de gostar dela. Um «amo-te», que precisava tanto de ouvir, todos os dias, de olhos ainda fechados, para se conseguir levantar da cama, para enfrentar um novo dia, para ter coragem de existir.

Todos os dias, assim: ela, ele, ali. E seria sempre assim, enquanto ela precisasse deste doce «amo-te» para colmatar a falta que ele lhe fazia. E que era demasiada. Ainda.

PARTILHAR
Artigo anteriorEsta é a única vida que tens
Próximo artigoEsquece-o: por ti
Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.