Uma vida com nuvens nos pés

1158
Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

«Gostava de saber voar», dizes-me tu. «Porquê?», pergunto-te. «Para conseguir ver o mundo todo lá de cima. Ver as pessoas como pintinhas pretas no chão branco. Os telhados vermelhos das casas. Será que saberia qual delas é a nossa?» Aceno com a cabeça. Respondo-te que «sim, saberias». Gosto de acreditar que saberias sempre qual seria a nossa casa, onde quer que fosses, onde quer que estivesses. Sorrio-te. Fazes dos teus braços as asas de um avião e voas pela sala, entre os sofás e os móveis, como um também pequeno pássaro feliz.

Que fascínio é este? Queres voar. E eu quis tanto voar em criança, como tu. Desde pequenos que nos deslumbramos com esta possibilidade. Esta possibilidade de sermos maiores do que somos: mais altos, mais amplos. Na tua idade, eu queria fugir dos cães que me ladravam no caminho para a escola primária. E jogar à apanhada no céu azul. Corria. Com tanta força. Queria voar. «Tenho apenas de me concentrar. Basta isso», dizia-me. Um dia, bastar-me-ia isso: tinha a certeza. E tentava. Tentava tantas vezes. Um dia, conseguiria levantar voo. Conseguiria ganhar balanço e este balanço conseguiria elevar-me sobre a cidade. Um dia! Até lá, voava nos sonhos. E antes de adormecer: em pensamento. Dentro de mim: da minha imaginação. E, lá, na minha imaginação, conseguia voar mais alto do que as árvores, do que as casas. Tinha o mundo ao alcance da vista. E uma liberdade omnipresente, capaz de ver tudo, de compreender tudo. O mundo aos meus pés.

«Gostava de saber voar sobre as casas e sobre os montes, as cidades e as nuvens», dizes-me. E eu fico aqui, contigo, neste sossego nosso, a imaginar contigo uma vida onde pudéssemos voar. Uma vida que não nos prendesse os pés ao chão, que não nos limitasse às casas e às estradas. Uma vida com nuvens nos pés, com sol quente mesmo à nossa frente e com ar fresco no rosto. Uma vida com braços abertos, cheios de vontade de descobrir e de receber o mundo todo. E livres.

«Gostava de saber voar», dizes-me tu. E eu sorrio e acrescento: «Eu também, meu amor.»

PARTILHAR
Artigo anteriorAtrás de ti, em mim
Próximo artigoEsta é a única vida que tens
Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.