READING

Ressaca de ti

Ressaca de ti

Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ela sentou-se. Os olhos inchados. Tinha passado a noite em branco, a olhar pela janela, entre as lágrimas e o copo de vodka. Contou, tantas vezes, as estrelas no céu. Deu-lhes nomes que inventou. Imaginou a distância entre elas. Imaginou que bastava saltar de uma para a outra, com o mesmo sorriso malandro de criança e a mesma ingenuidade nos pés miúdos e nos braços, que queriam ainda saber voar.

Ela sentou-se. Os olhos inchados. Tinha passado a noite em branco, a contar o tempo do antes e do agora e do depois, entre as lágrimas e as súbitas vezes em que se levantava, de rompante, e se dizia a si própria: «Acabou. Não vou sentir mais isto. Não vou verter nem mais uma lágrima por ti.» E, no segundo a seguir, deixava cair o corpo no mesmo chão frio de madeira, virada para a cidade, e chorava. Chorava e bebia vodka. Sofregamente. De um só trago, desejando que o álcool a queimasse, por dentro, o suficiente para lhe substituir a dor da ausência pela dor da queimadura.

Ela sentou-se. Os olhos inchados. Tinha passado a noite em branco, a pensar nele, entre o que tinha tido, o que não chegou a ter e o que nunca mais voltaria a ter. E o tempo tinha uma dimensão estranha. O tempo tinha cheiro, aroma, voz. O tempo tinha o paladar da saliva e a temperatura do corpo. Tinha o coração a bater, como um louco. E tinha o adeus. E o «volta para sempre, por favor».

Ela sentou-se. E os olhos inchados metiam-lhe pena. A si própria. Estava tão farta de se ver assim. Tão farta de tudo. Bebeu vodka. E ficou a olhar o mundo da janela de casa e a inventar nomes para as estrelas, por cima das quais ainda queria saber voar, como em criança. E o chão duro segurava-lhe o corpo cansado, que queria desistir. E deu tantos tragos quanto os que lhe foram possíveis. Todos de uma só vez. Todos de repente. E nem isso lhe bastou. Nem isso.

Embriagou-se com o álcool, mas não mais do que já estava: quando, há tempos atrás, se deixou embriagar pelo amor que sentia por ele.

«Cura-me desta ressaca», dizia-se. E implorou: «Cura-me desta ressaca de ti, por favor.»


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

Deixa aqui o teu comentário:

INSTAGRAM
SEGUE-ME NO INSTAGRAM
error: Copyright © Este conteúdo está protegido!
%d bloggers like this: