Eu sei

Do livro «Apetece(s)-me»

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo, do livro «Apetece(s)-me»
Ilustração © Laura Almeida Azevedo, do livro «Apetece(s)-me»

Eu sei, meu amor. Disse tudo o que não devia. As palavras saíram demasiado depressa da minha boca, sem ter sequer tempo para as medir. Vieram ácidas, descontroladas. Vieram com raiva, na maioria das sílabas, e com ciúme nas interjeições.

Eu sei. Há coisas que, depois de ditas assim, nunca mais podemos esquecer. Mesmo que o tentemos, não conseguimos. Trazem nelas o peso da revolta e da angústia. São ditas alto, para se garantir que o mundo inteiro as ouve, e dividem o amor ao meio.

Eu sei. A paixão, sendo tão avassaladora em tudo aquilo que nos dá e faz sentir, também consegue ser isto. Consegue ferver na boca, fazendo-nos arremessar, um contra o outro, palavras tão cruelmente certeiras. Sem haver calma que as arrefeça.

Devíamos — nós que amamos desta maneira louca, quase cega — conseguir apagar as palavras que nos saem assim.

Perdoas-me?

FONTELivro «Apetece(s)-me» [Marcador Editora]
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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.