Eu sei

Ilustração © Laura Almeida Azevedo, do livro «Apetece(s)-me»

Ilustração © Laura Almeida Azevedo, do livro «Apetece(s)-me»

Eu sei, meu amor. Disse tudo o que não devia. As palavras saíram demasiado depressa da minha boca, sem ter sequer tempo para as medir. Vieram ácidas, descontroladas. Vieram com raiva, na maioria das sílabas, e com ciúme nas interjeições.

Eu sei. Há coisas que, depois de ditas assim, nunca mais podemos esquecer. Mesmo que o tentemos, não conseguimos. Trazem nelas o peso da revolta e da angústia. São ditas alto, para se garantir que o mundo inteiro as ouve, e dividem o amor ao meio.

Eu sei. A paixão, sendo tão avassaladora em tudo aquilo que nos dá e faz sentir, também consegue ser isto. Consegue ferver na boca, fazendo-nos arremessar, um contra o outro, palavras tão cruelmente certeiras. Sem haver calma que as arrefeça.

Devíamos — nós que amamos desta maneira louca, quase cega — conseguir apagar as palavras que nos saem assim.

Perdoas-me?


Este texto é um dos 77 textos que podes encontrar no meu livro «Apetece(s)-me» — à venda na FNACWOOKBertrand e Hipermercados.


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes. Uma portuguesa a viver em Londres.

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