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O amor continuava a ser um lugar maravilhoso

O amor continuava a ser um lugar maravilhoso

Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Era tarde e a noite caía, vestida de negro, sobre a cidade cheia de luzes. Era tarde e a vida, vestida de impossibilidades, impedia-a de estar com ele. Mas, mesmo assim, ela queria tanto estar com ele. A saudade fervia-lhe no peito. Bastavam-lhe uns minutos. Apenas uns minutos. «Apenas uns minutos de ti», pediu.

Fez, então, o que fazia sempre. Fechou os olhos. Imaginou. Ali estava ele. Podia ouvi-lo. A voz despida, doce. A respiração suave. O calor na sua voz. O silêncio entre as palavras. O sorriso acolhedor. Sorriu. Quando o ouvia, parecia que cantavam passarinhos e tocavam violinos, que lhe davam vontade de chorar — de emoção.

Continuou a imaginar, se só assim poderia estar com ele. E ali estava ele, com ela. Sem precisarem de muitas palavras. Já tinham dito tanto um ao outro. O silêncio bastava-lhes. Ouviam bum-bum, bum-bum, bum-bum. Não sabiam qual era o coração de um e do outro. Batiam ao mesmo tempo. Exactamente, como se fossem apenas um — e, às vezes, eram mesmo apenas um.

Ali, de olhos fechados, pôde então abraçá-lo. E envolver os braços à volta do seu pescoço. Sorrir-lhe timidamente ao ouvido. Repousar o queixo na sua pele quente do pescoço e ficarem, assim: tão atentos e metidos no abraço prolongado que davam um ao outro. O abraço que queria abraçar tudo: até a alma; sobretudo, a alma. O amor era um lugar maravilhoso que, afinal, também se chamava abraço.

Abriu os olhos. Não resistiu. Já sabia que não o iria encontrar ali, de olhos abertos, mas foi mais forte do que ela. Queria tanto. Contou até três e abriu os olhos. Ele não estava ali. Maldita magia que só funcionava nos livros e nos filmes. Daria tanto jeito agora. Podia senti-lo, ouvi-lo, imaginá-lo, sonhar com ele — de olhos fechados, acordada ou a dormir —, mas não mais do que isso. Ele não estava ali.

Ali, de olhos abertos, estava um espaço vazio. Ali, de olhos abertos, estava a ausência dele. Ali, de olhos abertos, estava o adeus que remexia tudo por dentro, deixando-lhe o estômago num alvoroço, o coração num frenesim e a garganta apertada numa comoção doce. Ali, de olhos abertos, a vontade de chorar.

O amor continuava a ser um lugar maravilhoso, onde sentia tanta vontade de descansar de tudo, com ele. Respirou fundo. Fechou os olhos. Abraçou-o, de novo. Sentiu-lhe a pele morna do pescoço nos lábios. E, durante muitos e longos minutos, ficaram apenas assim: nesse abraço. Ouviam juntos: cantavam passarinhos e tocavam violinos, que lhes davam vontade de chorar — de emoção.

E ela chorou. Em silêncio. Apertando-o com força, com tanta força, com quanta força era capaz. Chorou em silêncio abraçada a ele. Cada lágrima a apertar o abraço com mais força. Um abraço tão, tão apertado, que quase parecia ser capaz de beijar os corações. Um abraço tão sentido e aflito, que tinha medo — este medo parvo — de nunca mais se poder voltar a abraçar.

E então abriu os olhos. Já sem contar até três. Sabia que de nada adiantaria contar até três. Infelizmente. Talvez nunca viesse a estar — pensou ela. «Nunca irá estar», lamentou.

Era tarde e a noite caía, vestida de negro, sobre a cidade cheia de luzes. Era tarde e a vida, vestida de impossibilidades, impedia-a de estar com ele. E foi então que se perguntou: «Como se consegue matar esta saudade constante de quem nunca poderá ser nosso?» Não sabia. Continuava sem saber.

O amor continuava a ser um lugar maravilhoso, sempre que pensava nele. Não sabia sair de lá.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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