O tempo [não] mata tudo

1990
Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ela sabia que não devia e que tudo o que tinham tido já havia terminado. Que nada mais restava entre os dois. Que já não se viam há demasiado tempo. Que nunca mais tinham conversado sobre os dias, os seus sentimentos e contado histórias sobre a vida um ao outro. Que nunca mais tinham partilhado sonhos, onde pudessem caber os dois. Que nunca mais se tinham abraçado com as palavras e com o olhar. Que nunca mais tinham dito «gosto tanto de ti». Que o silêncio era a única coisa que restava de tudo — do tanto — que tinham sentido um pelo outro.

Ela sabia que o tempo matava tudo. «É só uma questão de tempo», pensava. «É só uma questão de tempo até tudo desaparecer de vez.» O tempo sabe, por vezes, matar tudo. O tempo consegue, tantas vezes, dissipar as recordações, turvar os sentimentos, acalmar as emoções — até mesmo as mais intensas, as que parecem ter fogo e urgência nelas. Ela sabia que o tempo já tinha matado tanta coisa, na sua vida, que, agora, era só uma questão de tempo até matar mais uma. E que o que o tempo faria às suas próprias recordações seria o mesmo que faria às dele. «Olhos que não vêem: coração que não sente», dizia-se, murmurando baixinho, enquanto tentava agarrar-se de novo à sua vida: sem ele.

Mas aquela ligação não a deixava seguir em frente. Os olhos podiam não ver — e, na maioria das vezes, até se fechavam com força para não verem nada —, mas o coração continuava a sentir. O coração sentia tudo. Sentia-o como se tivesse sido ontem. Sentia-o como se tivesse decorado cada palavra. Sentia-o como se pudesse vê-lo ainda à sua frente, de novo, e sentir, uma vez mais, vontade de lhe dar a mão, vontade de o abraçar.

Ela sabia que a vida tinha de continuar. Que a vida era feita de escolhas e que, no tempo certo — ou, até à data, no único tempo que parecia ser o certo —, ambos tinham escolhido não ficar juntos. Ambos tinham sido apanhados desprevenidos na intensidade com que sentiam tudo. Ambos tinham sentido medo. Sim, medo. Porque o amor também mete medo. Porque amar, com o coração cheio e a saltar do peito, é um risco. Um risco grande. Demasiado. E que treme os joelhos. Que mete nervos no estômago e ansiedade nos sonhos. E eles não quiseram correr riscos. Por isso, escolheram. Escolheram não ficar juntos. Escolheram-no, mesmo quando ela lhe dizia «gosto tanto de ti; não saias de mim». Escolheram-no, mesmo quando ele lhe dizia «gosto tanto de ti; não saias de mim». Precisavam os dois um do outro. Pediam-no os dois. Mas tinham medo. E as palavras baralhavam-se. Diziam tantas coisas doces, que, com o medo, obrigavam-se a dizer também as mais sensatas, as meticulosamente pensadas — para que a urgência de quererem tudo, agora e já, não os sufocasse.

E ali estava ela, ainda. Ela sabia que não devia e que tudo o que tinham tido tinha já terminado. Que nada mais havia entre os dois. Que nunca mais tinham partilhado sonhos, onde pudessem caber os dois. Que nunca mais se tinham abraçado com as palavras e com o olhar. Que nunca mais tinham dito «gosto tanto de ti». Que o silêncio era a única coisa que restava de tudo — do tanto — que tinham sentido um pelo outro. E que era suposto o tempo matar tudo. Sim, era suposto.

Mas, passado todo este tempo, o coração continuava a sentir. E ela continuava a pensar nele. Mesmo quando pensar nele era pensar: «Hoje, não vou pensar nele.» «Hoje, não pensei nele.» Pensava nele por todos os motivos e mais alguns — inclusivamente quando se dizia que não queria pensar nele, quando se incutia esse feito, porque isso, só por si, já era ter o pensamento nele. Por vezes, olhava até o calendário e contava os dias: «Estou há quinze dias sem lhe dizer nada.» Sentia ser uma vitória. Era uma vitória. Quinze dias sem lhe dizer nada, quando todos os dias pensava nele, quando todos os dias queria saber dele — e quando todos os dias se dizia que não queria pensar nele. Quinze longuíssimos dias. Sim, quinze longuíssimos dias, de cada vez, cheios de mini vitórias — porque cada dia era, só por si, uma enorme vitória.

Mas ali estava ela, sem ele. E sentindo, às vezes, vergonha de si própria por gostar ainda tanto dele. «Devia ser mais forte do que isto», dizia-se. E era. Era tão forte, tão determinada, tão segura de si. E tão cheia de qualidades, que certamente, se quisesse, não lhe faltariam homens com vontade de a fazer feliz. Mas tinha sido ele. Tinha sido ele a ser tudo. E ela sabia-o. Tinha sido. Ela poderia fechar os olhos — com toda a força que conseguisse, com toda a determinação do mundo — que o coração sabia-o e era por isso que continuava a sentir. Tudo. E a saber de cor as palavras dele. E a saber de cor a sensação de estarem juntos. E a sentir que tinham sido feitos um para o outro.

«O tempo mata tudo. O tempo mata tudo. O tempo mata…», continua a dizer, em surdina, a si própria, e depois de todo este tempo, enquanto nasce mais um dia: sem ele.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.