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Abraça-me para sempre, por favor

Abraça-me para sempre, por favor

Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ali estava ela, sentada no banco de jardim. Era primavera. Fechava os olhos para ouvir os pássaros a embalarem o silêncio. Foi numa das vezes, em que os abriu, que viu: ali estava ele, sentado no mesmo banco de jardim. Olhou-a e sorriu. Era um sorriso que parecia vir de mansinho — como se tentasse não fazer barulho. Fazia, mas ele tentou que não. Então, ela sorriu-lhe de volta, ajeitando-se no banco, e ali ficou a sentir discretamente o perfume a madeiras doces que ele trazia no corpo.

Alguns instantes depois, ele quebrou o silêncio e disse-lhe qualquer coisa sobre o tempo. Mas ela estava distraída a observá-lo, enquanto ouvia o próprio coração a galopar dentro do corpo. Ele voltou a falar. Ela acenou que sim com a cabeça — muito depressa, como se estivesse a tentar enxotar o deslumbramento de dentro do corpo. Sentia umas picadas ligeiramente ácidas nas maçãs do rosto — que queriam subir pelo nariz — ao ponto de sentir vontade de chorar. Tinha um peso inexplicável no peito. E um nó na garganta. Mas, nisto, ele sorriu-lhe e ela distraiu-se a devolver-lhe o sorriso, embora incapaz de descansar as mãos nervosas no próprio colo.

Estiveram ali trinta minutos. Ela quis saber o nome dele. Ele quis saber de onde ela era. Ela quis tocar-lhe levemente a mão. Ele quis sentir o aroma dos caracóis que dançavam no cabelo dela. Ela quis adormecer no abraço dele e ele quis demorá-la no seu abraço. Ela desejou-o. E ele desejou perder o fôlego no beijo apaixonado dela. E foi, então, aqui que ela lhe pediu: «abraça-me para sempre» — mesmo sem pronunciar uma só palavra. E foi aqui que ele — também sem dizer nada — lhe pediu: «nunca mais saias do pé de mim, por favor».

Estiveram assim, nesta conversa muda, até que um amigo dele apareceu — e esse, sim, fazia barulho. Ele endireitou-se no banco e engoliu em seco — como se tentasse enxotar o nervoso miudinho do corpo. Sem notar em nada, o amigo ia falando com ele, mas ele tinha os olhos fixos nela: que o olhava, agora, com uma aflição repentina. Queriam ambos parar o tempo. Queriam ambos ficar apenas a olhar um para o outro — mesmo que disfarçadamente. Queriam, mais do que isso, abraçar-se. E, sobretudo, demorar-se nesse abraço.

Ele foi-se embora. E ela ficou sozinha no banco. Ele, aflito, olhou-a por cima do ombro. Ela, aflita, olhou-o de volta. E assim foi até que ele desapareceu na esquina. Quando o que ficou foi apenas a ausência dele, as picadas ligeiramente ácidas finalmente subiram pelo nariz. E o choro soltou-se. Enquanto as mãos tremiam, tudo o que quis foi correr atrás dele — chamando-o pelo nome que não teve coragem de perguntar qual era.

[Ainda hoje não sabe o nome dele. Mas lembra-se bem deste instante em que se amaram intensamente um ao outro — e como tão poucos sabem amar numa vida inteira.]


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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