És feliz?

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Sento-me à tua frente. Aguardo que dês por mim aqui. Olho-te com estes meus olhos abertos e fixos nos teus, com estes meus dedos cravados no sofá debaixo de mim. Há um silêncio mudo entre nós. Um compasso de espera. De súbito, a noite fecha todas as janelas de casa para que o que se passa, no resto do mundo, não nos possa distrair de nós. E tu olhas-me, por fim.

«És feliz?» — pergunto-te. Sorris. Gaguejas. Encolhes os ombros. Voltas a sorrir. Devolves-me uma outra pergunta: «A que propósito vem isso agora?» «É preciso haver sempre um propósito?» Engoles em seco. «Não é?» — perguntas. Insisto: «És feliz?» Sorris. É um sorriso miudinho, nervoso. Conheço-te já demasiado bem. Respiras fundo. Desvias o olhar. Atiras: «Claro que sou feliz.» Claro que és — penso. Encolhes os ombros. Justificas: «Há sempre dias melhores e dias piores, não é?» E, desviando o olhar, voltas a agarrar no livro pousado a teu lado. «É. Há sempre dias melhores e dias piores» — repito.

Evitas olhar-me. Ajeitas-te melhor no sofá. Cruzo os meus braços e mantenho os meus olhos abertos, fixos em ti. Folheias uma página. Ainda aqui estou e é como se já me tivesse ido embora. Mas continuo à espera. À tua. Da tua verdade. E à espera que a quebra do silêncio — este silêncio, de janelas fechadas para o mundo — me tire desta angústia onde a felicidade me meteu.

Porque a felicidade não devia ser isto. Não. Não devia ter este eco premeditado entre nós. Não devia ter braços que nos afastam um do outro. Nem conseguir dar respostas que não tenham nelas apenas a verdade. A felicidade, no amor, não devia ser assim: eu aqui e tu aí. Não devia ser feita de insónias: que me deitam, a teu lado, a olhar para o tecto do quarto onde, em tempos, prometemos a felicidade — a verdadeira — um ao outro. Não devia ter choros que vêm do âmago: deste fundo, tão fundo, de mim, onde as palavras não sabem ter sons que cheguem para dizer aquilo que [já não] sinto. Não devia ter medo de planear a vida. Não, a felicidade não devia ser isto. Eu sei disso. E também o sabes tu.

A felicidade devia ser tudo o que isto não é. Devia ter sons e melodia e música. Devia ter abraços apertados que nos quisessem demorar longamente um no outro. Devia dizer a verdade com o peito aberto, com o coração inteiro. De uma forma frágil e segura, ao mesmo tempo: como só é a verdade do amor verdadeiro e da felicidade que, sim, é verdadeiramente feliz. A felicidade devia ter noites inteiras — que, mesmo assim, parecessem ser curtas demais — para fazermos amor um com o outro. Para mergulharmos na pele e no calor: dormentes de prazer no corpo, mas, sobretudo, na alma. A felicidade devia prometer-nos um ao outro com palavras doces. E, mesmo quando tivéssemos de chorar — por causa um do outro —, devia ser capaz de nos reconfortar. Devia ser capaz de nos fazer sarar a dor, causada pelo outro, nos braços um do outro. E de nos proteger do escuro e das dúvidas e até dos erros que não sabemos evitar. A felicidade não deveria ser escrita em itálico, como foi a tua.

Mantenho os meus olhos abertos e fixos em ti. Nada digo. Nada dizes. Folheias mais uma página do livro — como se eu já não estivesse aqui — e eu deixo cair o meu corpo dormente no sofá. Olhas-me em silêncio, de relance, com uma expressão fugaz de alívio. E eu ligo a televisão.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.