O choro da saudade

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A saudade queima, dilacera. Abre um buraco fundo no nosso peito. Ateia fogo no coração — e tem nele labaredas que sobem pela garganta e que incendeiam a boca dolorosamente muda. Faz o corpo doer. É uma angústia sem palavras que estrebucha dentro de nós. Que a razão não sossega. Queremos não a sentir. Ser mais fortes do que ela. Queremos suportar a dor. Mordê-la. Enrolá-la no canto da boca e fingir que não está cá — sabendo nós tão bem que está. Queremos ter orgulho na nossa força. E evitar que o choro da saudade rebente em nós.

Mas o choro da saudade já tem cá as raízes. E, a cada novo dia, estas crescem sempre mais um pouco. Devagarinho. Quase de forma imperceptível. Começam nas lembranças mais doces — uma ali e outra além. Depois, nas palavras onde dançámos. De seguida, vão para o abraço, do qual sentimos tanta falta. E, quando reparamos, o choro da saudade já é adulto de mais, em nós, e deixamos de ter mão nele. Sem nos apercebermos da força com que cresceu, sai, por fim, de nós: disparado, aos soluços, devastando-nos. Porque precisa de ser livre. Precisa de ser choro: todo de uma só vez. Já.

A saudade abre um buraco fundo, em nós, que não sabemos como preencher. E que deixa o coração descoberto. Em carne viva. Queremos à força que o buraco desapareça daqui de dentro. Que se tape sozinho. Que não deixe cair dele o nosso coração. E que com a queda não leve de nós a vontade de acreditar, nem a capacidade de esperarmos pelo dia em que a saudade deixará de doer — tanto, pelo menos. Não sabemos por quanto mais tempo suportaremos a dor que ela nos traz.

[A dor que o choro da saudade acalma, mas nunca, nunca desfaz.]

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.