Queima-nos o peito

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A vida é assim. Surpreende-nos. Arranca-nos os pés do chão. Mete silêncio onde deveria haver palavras — porque as palavras são tantas que, para não se baralharem, preferem ficar mudas.

A vida é assim. Escancara-nos o mundo. Abre-nos o coração ao meio. Mete, nele, os dedos. Escarafuncha em nós: nas nossas emoções mais caladas, nos nossos medos, nas nossas angústias mais densas — que tentamos mastigar, mas que aprendemos a enrolar no canto da boca —, nos nossos sonhos cheios de medo, sobretudo, de sermos [in]felizes.

A vida é assim. Arde-nos na boca. Queima-nos o peito. Treme nas nossas mãos. Enfraquece-nos os joelhos. E, às vezes, olha-nos com aquele prazer mudo de analisar as nossas fraquezas, de testar as nossas reacções. E, quando nos vê realmente aflitos, diz-nos, cheia de gozo: «Estás vivo. Esperavas o quê?»

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.