Hoje já é, meu amor

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Estou aqui. Respiro fundo. Rodopiamos as palavras nas nossas línguas e, sem perdermos tempo, arremessamo-las um contra o outro. Levam tudo o que sentimos, mas também tudo o que fingimos sentir. Têm a ousadia de dizer o que devemos dizer, o que podíamos optar por não dizer e, sobretudo, o que nunca deveríamos ter coragem de dizer. Amanhã vai ser um dia diferente de qualquer outro. Hoje já é.

Estou aqui. Respiro fundo. Fecho os olhos e contenho o choro que parece querer explodir no meu peito. Mal consigo respirar. Se pudesse, fugia do meu próprio corpo — só para não ter de lidar com isto. É uma dor sem palavras. Dói. Demasiado. Amanhã vai ser um dia diferente de qualquer outro. Hoje já é. É o dia em que te vejo ir embora. E lá vais tu, sem olhares para trás.

Estou aqui. E sei que não é possível ter lágrimas que cheguem para chorar este adeus que dissemos. Na verdade, esta dor é tão funda que apenas consegue assim ficar. Em silêncio. Muda. Nesta agonia que grita: por dentro.

[Amanhã vai ser um dia diferente de qualquer outro. Hoje já é, meu amor.]

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.