«Estás feliz?»

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Havia alturas em que ela parava de falar, sem vontade de dizer o que quer que fosse. Ela sabia que não estava feliz. Sabia que a vida com ele era muito diferente do que tinha imaginado. Sabia que era apenas metade de quem queria ser. Não tinha motivação suficiente para dizer, para explicar, porque já conhecia de cor e salteado aquilo que a incomodava — e fazer silêncio era uma maneira menos difícil de lidar com o descontentamento.

Levava os dias a pensar que tinha de, «um dia destes», juntar os trapos e ir embora. E largar tudo. Imaginava-se a sair por aquela porta e, apesar do alívio que isso lhe dava, tinha medo. Medo da mudança drástica.

Evitava-o, procurando motivos para sair sozinha durante o dia. Quando ele chegava à cama, fingia-se adormecida. Fazia silêncio quando ele lhe perguntava: «Estás feliz?» E esboçava um sorriso à espera que isso, enquanto resposta, bastasse.

Não bastava. Eram cada vez mais os momentos em que sentia que era outra. Olhava-se ao espelho. Não se reconhecia. Às vezes, perguntava-se: «O que é que eu faço quando perder, de vez, a vontade de viver?»

Um dia, fez as malas. Saiu.«Perdi o gosto por esta vida.» E foi, ironicamente, essa falta de gosto pela vida que a salvou.


Olá! Eu sou a Laura, a autora deste blog e do livro «Apetece(s)-me». Sou também freelancer em desenho gráfico, ilustração, redação de conteúdos e gestão de redes sociais. Paixões? As mais simples: escrever, desenhar, música, varandas e cidades grandes. Atualmente, vivo em Londres!

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