Uma angústia inexplicável

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ApetecesmeWebsite200Há dias em que as palavras não chegam — e em que o coração tenta ficar imóvel para não transbordar do nosso peito. Há dias em que a luz da rua não basta para nos fazer sentir vontade de enfrentar o mundo — e são dias em que apetece apenas um silêncio demorado que decidiu fazer uma pausa momentânea de tudo. Há dias em que os sonhos parecem ser sonhos para uma vida diferente — e não a nossa —, mesmo quando são nossos, mesmo quando os queremos tanto, mesmo quando precisamos tanto deles para viver a vida que temos. Há dias em que o reflexo que vemos no espelho parece vago, ausente, longínquo, obtuso, inerte e fugidio.

São dias em que acordamos com uma angústia inexplicável dentro do peito. São dias em que temos vontade de gritar com o mundo, sem, na verdade, sabermos concretamente o que gritar. Mas a urgência queima-nos. A angústia alastra-se em nós. E precisamos desta revolta interna que, hoje, não aceita a vida como ela é — que, mais do que a vida, não aceita sequer quem somos.

Há dias assim: em que as palavras não chegam — e em que o coração, no meio de tanto calor e de tanta urgência e de tanta rebelião interna, se esconde de nós próprios, incapaz de bater ao nosso ritmo.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.