Tinhas o sorriso

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Tinhas o sorriso prostrado em mim. Tinhas o olhar metido dentro do meu, agarrado ao que sou. Tinhas a voz suave, engasgada nas primeiras palavras, a soar devagar, com receio de fazer muito barulho. Tinhas o inesperado no teu rosto, a intensidade no bater nervoso do meu coração e o entusiasmo nas minhas mãos irrequietas – que não sabiam onde ficar.

Tinhas o hálito quente, com aroma a eucalipto, a convidar-me para um passeio a pé com vista para o mar. Tinhas a gargalhada desnorteada, que me fazia rir, que me devolvia o mundo, que era imensa, verdadeira. Tinhas o toque brando e cauteloso e o mistério sentados sobre o silêncio.

E o meu coração disparava, cada vez que te via. Com a garganta aflita, sem conseguir reagir, apertada dentro do meu corpo. Com o desejo e com o deslumbramento vestidos em mim.

Durante tanto tempo, foi assim. A ver-te. Sem coragem de gritar ao mundo este sentimento quente, gigante, que, todos os dias, me devolvia a vida. Esta vontade louca de dizer as palavras, de tocar os gestos, de encurtar a distância. Esta parte de mim a ser desassossego abrupto no meu peito, quente de ti, sem, contudo, te ter.

Gostamos de quem acontece gostarmos. Não de quem escolhemos.


Designer, ilustradora, copywriter e autora. Apaixonada por comunicação, pessoas e cidades grandes.

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