Há instantes

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Há instantes, na vida, em que apenas o silêncio deveria prevalecer. Um silêncio, a destacar de todos os outros, que consegue tornar as palavras desnecessárias. Um silêncio que tem voz, que tem sossego, que tem entoação, que tem compreensão.

Nesses instantes, as palavras são uma poeira fina que nos turva a visão. São mãos agarradas aos nossos braços e às nossas pernas, impedindo-nos de dar um só passo. E é aí que as palavras podiam, simplesmente, assim ficar: deitadas sobre a nossa língua, descansadas no sossego de quem não diz, porque não precisa de dizer.

Nesses instantes, o silêncio deveria vir despido e ficar, entre nós, com os olhos muito grandes, a ver-nos. E a dizer-nos baixinho: «Shiu! Não fales!» Para ouvirmos tudo o que fica dentro do silêncio. Para entendermos, de uma vez por todas, tudo aquilo que as palavras tentam insistentemente dizer, mas nem sempre conseguem.

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Laura Almeida Azevedo
36 anos. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Viciada em música e chocolates. Fascinada por pessoas, emoções e cidades grandes. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro «Apetece(s)-me». E a desafiadora-mor da plataforma de escrita criativa: Desafio-te.